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30 de jul. de 2020

232. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: CANADÁ.

Simulação da maternidade na adolescência.



Esta foi uma experiência que minha filha viveu aos 15 anos quando fez intercâmbio no Canadá. E achei simplesmente fantástica. A gravidez na adolescência é mais comum do que imaginamos, e o quão pode desestruturar não só os adolescentes, mas toda a família. As escolas e os pais costumam trabalhar esta questão, mas aprender sentindo na pele faz toda a diferença.

 

E como a escola fazia?

Após alguns blá blá blá que conhecemos bem, cada adolescente ganhava um bebê robô. Era perfeito, tinha tamanho e peso de bebê, era programado com algumas características e repleto de sensores que emitiam mensagens aos professores que analisavam a conduta das novas “mães” ou “pais”. O “bebê” da minha filha, por exemplo, foi programado para chorar a noite inteira. Oh dó! Cada vez que eu falava com ela, suas olheiras estavam mais profundas e seu humor mais descontrolado. Chegou a chorar junto: “Não aguento mais! Eu já nem apago a luz do quarto durante a noite!”

 

O bebê robô, assim como os bebês reais, não tinha botão para desligar. E para onde ia precisava levá-lo. Muitas vezes ela teve que abandonar as salas de aula, as de cinema, as diversões com os amigos para trocar fralda, alimentar, ninar, cuidar. E pela manhã, não bastava mais cuidar de si. Precisava acordar bem mais cedo, pois havia o “filho” para cuidar também, independente da noite mal dormida.

 

Lembro que sua nota abaixou quando esqueceu de agasalhar o bebê num dia frio. Os professores ficavam atentos a cada detalhe. E quando terminou a sua missão e devolveu o bebê aos professores, conseguiu fazer várias reflexões importantes, além de nos agradecer muito por tudo o que havíamos feito por ela. E, com certeza, valorizou o sono como nunca antes. :))

7 de dez. de 2016

191. ENSINE A APRENDER, APRENDENDO.

Museu D'orsay.
Não basta estar de frente ao conhecimento para apreender. É necessário que a criança atualize os seus saberes já construídos frente ao novo estímulo que se apresenta. E isto não se faz de forma passiva. Precisa comparar, identificar, buscar semelhanças e diferenças, travar relações, pensar sobre e atuar de forma ativa para que a nova informação seja aprendida. Mas, para isto, é preciso perceber a oportunidade, ter atenção e motivação. Ou seja, não basta estar de frente a um quadro para vê-lo. Facilita se o estímulo for, de certa forma, ligado ao que a criança já conhece e/ou que tenha um sentido emocional. Por isso, elas gostam tanto de aprender de forma lúdica!
Observe a foto. Eu encantada com pai e filha que oham juntos o quadro de Monet. O pai parava em alguns quadros e esculturas, sempre perguntando à filha o que ela via. E dialogavam em busca de um sentido e uma história para a obra. Ou seja, o pai oferecia a oportunidade e chamava a atenção da criança para a nova aprendizagem. Deixava-a falar, aproveitando-se para ampliar o que ela já havia construído. Fazia de jeito leve, sem demora ou exagero. Uma educação na medida. Infelizmente, na nossa cultura, não temos o costume de levar crianças aos museus, exposições ou concertos. E é uma pena, pois a arte é muito importante ao desenvolvimento do ser humano, tanto da criança quanto do adulto. Alguém pode dizer: “Mas não é chato?” Não se você estimular a criança na medida certa, e buscar sentido e sentir para todos vocês. Um momento úncio, acredite! Vale viver.
    

25 de nov. de 2016

190. APRENDE- SE DA CULTURA VIVENDO A CULTURA.


Estive estes dias em Londres e Paris e visitei vários museus. Em todos eles, sem exceção, encontrei professores com os seus alunos com didáticas diversas e metas também. Conto um pouco do que vi. Um grupo, bem a vontade espalhado pelo salão, estudava perspectiva ao reproduzir a escultura por vários ângulos. Outro grupo fazia uma gincana pelo museu. As crianças tinham que encontrar e fotografar as dez obras que haviam estudado. Outro grupo, encontrava-se cada qual atento a um quadro e fazia uma releitura. Um dos garotos desenhava a Mulher Maravilha no lugar da Nossa Senhora. Fazia sentido! E apesar de novos, desenhavam muito bem. Claro, professores desenvolvidos e recursos favoráveis ajudam a promover desenvolvimentos aos alunos. Vi ainda, um grupo de adolescentes, que parava nos quadros e o professor dialogava em busca de ampliar percepções. Apenas dois mostravam-se desinteressados. Diferente do outro salão, onde vários jovens nem piscavam, atentos à obra, ao professor e às anotações. E era bem comum ver crianças sentadas em frente a uma obra enquanto aprendiam a percebe-la e e senti-la na sua complexidade. Alguns professores eram mais interativos, outros mais expositivas, outros mais lúdicas. Mas todos, proporcionavam a vivência da cultura na cultura. E lembrei da educação do Brasil. Temos muitos projetos bonitos, escolas sem igual. Mas, penso na maioria. Nas nossas aulas, nos recursos, no desenvolvimento do professor e do aluno, no que valorizamos como cultura. Penso na esperança e no trabalho pela frente.

15 de nov. de 2016

189. CRIANÇAS FRANCESAS FAZEM BIRRA SIM.

Passei alguns dias em Paris e ouvi muitas crianças fazendo birra. A gente reconhece quando é choro de manha, não? Logo lembrei-me do livro de Pamela Druckerman, “Crianças francesas não fazem manha.” Fazem sim. Porém, Pamela tem razão. Realmente a educação delas é bem diferente da nossa. Destaco alguns pontos. Não se vê criança comendo porcaria e apesar das panificadoras maravilhosas, quase todos são magros. Educa-se desde pequeno a comer bem, pouco e na hora. Também se alimentam da cultura bem melhor que nós. Vê-se criança com os pais em museus, concertos, espetáculos diversos. E as crianças tem muita curiosidade para tais eventos e se comportam muito bem. Claro, aprendem de pequena a relacionar-se com a cultura e a manter a arte no olhar. Vê-se ainda pais e filhos juntos em restaurantes, parques, lojas. Não há a cultura da babá como nós. Sorte das crianças e dos pais. Mas, neste processo vê-se e se ouve muita birra sim. Afinal, educar é complexo em toda e qualquer cultura e há processos de desenvolvimentos que acontecem em todas elas. A diferença está em como se lida. No quesito manha, os franceses também parecem lidar melhor. Não ficam negociando ou cedendo como vemos muito por aqui. Eles resolvem logo para não incomodar, encaram a criança, dizem algo e seguem andando. Ela para o choro, “cai na real” e os segue. E nesta hora dá vontade de esmagar a criança de tanta fofura. E aí entra a cultura brasileira. Extremamente afetiva como quase nenhuma outra.

22 de set. de 2016

185. BRINQUEDOS AJUDAM?

Como quase tudo na vida, depende. Há brinquedos geniais que ajudam a desenvolver a imaginação, o autoconhecimento, a socialização, a coordenação, a lógica, a cognição, a emoção, entre outros. Como há brinquedos que preocupam, como muitos eletrônicos. Vi um menino ávido por matar grávidas, pois valiam o dobro. Arrepiei-me. Pois ainda que seja virtual, a experiência fica registrada no cérebro da criança, com suas aprendizagens, sejam boas ou ruins. Além disso, a criança demora a distinguir realidade de fantasia. Cuidado, cuidado! Também, diversificar com muitos brinquedos não é efetivo. Já sabemos pelo nosso guarda roupa que quanto mais opções, mais nos parece que não há nada para vestir. Quase toda criança, cercada de brinquedos, diz: “Não tenho nada para brincar!” Além disso, brinquedos prontos tendem a limitar, pois já possuem uma função e um modo de operar. Comparemos um carrinho com controle remoto com um carrinho feito pela criança de garrafa pet, rodas de tampas que se movimentam com roldanas e elásticos. Qual destes dois brinquedos propiciam mais desenvolvimentos à criança? Há escolas, como na Noruega, que trocam os brinquedos por sucatas, tecidos, roupas, almofadas para que as crianças criem. Trabalhei em uma em SP que o maior brinquedo era a natureza. As crianças inventavam coisas incríveis. O que se percebe? Que elas tornam-se mais criativas (fundamental aos dias atuais), usam mais a imaginação (essencial à alfabetização) e tem menos conflitos entre elas. E o melhor, nenhuma criança reclama e adora. Fica aí a dica.

2 de dez. de 2015

172. COM A VOZ... AS CRIANÇAS.


Anotei algumas frases de crianças de educação infantil (3 a 6 anos) para atentarmos ao quanto as subestimamos e notarmos a diferença de um cérebro bem estimulado. Elas estudam em escolas na cidade de Reggio Emilia (Itália), que são mundialmente conhecidas pelas  suas práticas educacionais, que entre tantas outras, leva a criança a pensar, a criar hipóteses e teorias, a construir individual e coletivamente o conhecimento ligado ao seu cotidiano. Dá ainda condições para que adultos e crianças desenvolvam competências de dialogar, errar, construir argumentação, sequência lógica, fazer perguntas, desestruturar o pensamento e reorganizá-lo, passar a experiência concreta para uma representação mental, registrar de ene maneiras, não acumular saber e transformar o que tem já construído. A mente precisa saber se orientar em meio há tanta informação. E isto lá se ensina e se aprende muito bem.
As frases estão descontextualizadas, fora de seus projetos que as originaram, mas vale para perceber a complexidade na simplicidade e aprender com elas.

“Quando eu desejo minha mente se abre.”

“A lua perfuma as estrelas.”

“O perfume entra no coração e bate de modo diferente.”

“Você pode comprar uma flor, mas não pode comprar o perfume dela.”

“Quando você toca alguma coisa os dedos te fazem perguntas.”

“Para dar um passo para frente precisamos antes perder o equilíbrio.”

“Se as escolas não existissem não conseguiríamos fazer pensamentos.”

“A natureza é secreta porque não sabemos como se faz algumas coisas como as nuvens, o sol, o céu.”

“Se alguém dá água para a flor quer dizer que deseja a flor e que ela tenha uma vida serena.”

“A natureza é diferente. Depende do jeito que você olha.”

“A morte é a guerra.”

“Descansa porque já teve uma vida tanta!”

“Quando cai a neve tem um barulho de silêncio.”

“O silêncio é o gato que dorme.”

18 de nov. de 2015

171. VOCÊ JÁ DESENHOU O PERFUME DE UMA FLOR?


Estava em seminário com as educadoras Maddalena Todeschi e Loretta Bertani de Reggio Emilia (Itália), cidade reconhecida pela sua educação infantil. Em suas escolas há muita reciprocidade entre adultos e crianças, num clima de alegria e com liberdade para expressar o seu ponto de vista sem que haja julgamentos. “Quanto melhor este clima, mais cada um trará o original que há dentro de si.”, diz Todeschi, e que vai ampliando-se a partir das experiências. Também não há salas fechadas, mas diferentes espaços que se interligam possibilitando a construção ampla do que se aprende, bem como a sua revisitação. Espaços para desenho e pintura, construção, jardim interno e externo, cozinha, enfim uma escola repleta de possibilidades de aprendizagens e em movimento. Conto um episódio. Numa determinada turma e momento, discutia-se o desejo. Citarei duas reflexões dos pequenos. Veja que riqueza: “Quando eu desejo, minha mente se abre.” “Você pode comprar uma flor, mas não pode comprar o perfume dela.” Nossa! Como as crianças sabem dizer as coisas! Parei nestas frases por dias. Mas as crianças continuaram. Foram desenhar o perfume da flor! Alguém aí já pensou em desenhar o perfume? Eu nunca! Obrigada crianças por esta aprendizagem! Achei sensacional e os desenhos ficaram maravilhosos. Concluo que cabe sim ao adulto “provocar” as crianças para que ampliem o conhecimento de si, do mundo e percebam o que não se mostra ou nomeia. Mas cabe principalmente deixar-se ser provocado por elas. Vou lá desenhar o meu perfume.

6 de nov. de 2015

170. MEU AVÔ VIROU BEBÊ!


Ouvi isto de uma criança de 6 anos: “Meu avô virou bebê!” Claro que continuei a conversa para saber o porquê ela assim pensava. “Ele usa fraldas e tem babá!”, explicou rapidamente e com certo desdém. Logo nos vi num ciclo de vida e associei a duas lembranças. Uma delas foi um vídeo que circulou pelas redes sociais (clique no link abaixo) que mostra as fases deste ciclo com os seus surpreendentes desafios. E a outra, foi mais recente. O relato da italiana Maddalena Todeschi, um dos nomes de referência da educação infantil de Reggio Emilia, cidade que é referência mundial em educação infantil. Contou-nos de vários projetos, mas irei focar num pedacinho de um. As crianças de 4-5 anos junto com professores e também com eventuais participações dos pais, pesquisavam, interagiam, construíam o conhecimento sobre o ciclo da vida. Como parte do projeto, colocou-se um vaso com uma planta para as crianças observarem, questionarem, registrarem as suas construções, entre tantas discussões sensacionais entre elas e o mediador. Interessante que as folhas caídas ali ficavam. Nada de vassoura nelas! Pois, ilustrava uma das fases da vida. Isso queriam ensinar às crianças. “Cada um, no momento que está vivendo, tem a sua beleza. É uma responsabilidade ética ensinar isso a elas.”, diz Maddalena. Afinal, se a planta declara seu ciclo vital, nós humanos também. Importante ajudar a criança a perceber que há fases, há ciclos e há beleza em cada uma delas. Inclusive nas folhas caídas e no avô que virou bebê. Este conseguiu viver o ciclo da vida. Bravo!


12 de mar. de 2015

142. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Ahmedabad.


O último projeto que irei apresentar foi conhecido e vivenciado em Ahmedabad, uma cidade também bem interessante. Fomos a Riverside, escola lindamente construtivista, cuja fundadora, Kiran Bir Sethi, é também a idealizadora do fantástico projeto “Design for Change”. (ps: Tem um TED bem interessante com ela.) Conhecemos a escola pelos alunos que, ainda que pequenos, deram um show de como a escola funcionava. Falaram dos projetos, dos ideais da escola, de como aprendiam e o que aprendiam. Emocionante de se ver, bem como ver alguns projetos acontecerem. 
Interessante como eles vivenciam a aprendizagem, sentindo na pele, o que para mim é o melhor modo de aprender. Por exemplo: Um dos temas era o trabalho infantil, muito comum na Índia. As crianças da escola viveram um dia como se fossem essas crianças. Ficaram o dia todo quebrando pedras embaixo do sol e de um calor insurpotável. Um outro projeto achei uma graça e servia aos alunos que tinham desavenças entre si. Explicitavam a raiva, marcando em um mural quem não gostava de quem. E um deles presenteava o outro com uma planta. E ambos deveriam cuidar dela, enquanto se cuidavam. Deu-me certo conflito essa exposição, mas ao mesmo tempo achei lindo.
Passaria dias contando os projetos que vi ali. Mas vale focar no  “Design for Change”, que inclusive a própria Kiran reforçou aquilo que os pequenos alunos já haviam nos dito. É um projeto que trata o aluno como protagonista histórico e ser capaz de propiciar transformações. O método é simples e segue quatro passos: Sentir (feel), Imaginar (imagine), Fazer (do) e Compartilhar (share). Ou seja, o aluno detecta algum problema que o incomoda, o que já o ensina a observar a realidade como ser ativo. Então ele imagina como pode resolver o problema, e em geral convoca outros para ajudá-lo. Próximo passo é colocar em prática o planejamento do passo anterior, isto é, fazer. E então, compartilhar a experiência, que é um modo de contaminar benignamente a outros.
Esse projeto é relativamente novo e já alcançou boa parte do mundo. Assistimos vídeos de diversos países, com diferentes problemas e suas resoluções. Hong Kong, Butão, Chile, Colômbia, França, Canadá, EUA, Camarões, México, Espanha, Brasil, Filipinas, Portugal, Singapura entre tantos outros. E a maioria conseguiu arrancar-me lágrimas. As crianças levantavam e resolviam problemas de bullying, cantina, recreio, material escolar, acesso à escola, limpeza dos banheiros, buracos nas estradas, inclusão de alunos e diversos outros. Não importava o tamanho do problema nem a sua complexidade, mas sim ensinar às crianças a sentirem os problemas, pensarem em soluções e agirem. Realmente arrepiante de se ver. Tudo muito inspirado no Quociente de Gandhi, já explicado em post anterior. Mas que se resume numa frase do próprio: Seja você a mudança que quer no mundo.
Que ideia simples, mas altamente transformadora. E, além de compartilharem com a comunidade o problema sentido e como foi resolvido, há ainda um evento, de que também participamos, onde há a troca com todas as escolas envolvidas da Índia. Como há ainda um evento bem maior, onde compartilham com todas as escolas do mundo que abraçam essa causa. Kiran, a idealizadora, é de uma simplicidade que nos faz pensar e é mulher iluminada. Não há como negar.
Por mais que existam também aqui no Brasil projetos assim, eu nunca vi algo tão grandioso, organizado e ao mesmo tempo simples e complexo.  Sei que, de todas as viagens que já fiz, talvez a Índia tenha sido a que mais impactou a minha vida. Proporcionou-me rever muitos conceitos, valores e percebi mudanças que vieram delicadamente, assim como os indianos são.

Obrigada Deus pela vida, por me acompanhar nessas aventuras tão construtivas, por me permitir viver tais maravilhas. Obrigada a cada indivíduo que passou pela minha vida, ajudando-me, por bem ou por mal, a ser pessoa melhor. Um ser ainda em construção, e que assim seja até o último suspiro. Até a próxima viagem!

Acesse o link e veja outras postagens da série Educação pelo mundo.

SÉRIE EDUCAÇÃO PELO MUNDO

9 de mar. de 2015

141. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Pune.


O interessante dos indianos é que eles nos colocam para viver a cultura, o que é bem mais fidedigno para compreendê-la. Em Pune, ficamos hospedados na Universidade de Flame, que fica em um lindo vale. Todos os alunos moram ali. Foi uma experiência muito mais rica em termos de conhecimento da cultura, inclusive da rural. 
Ficar entre os alunos e viver o cotidiano deles numa cultura tão diferente da nossa foi realmente interessante. Participei de meditações, de vivências com músicas e danças, de dinâmicas grupais e individuais, vivendo num campus em funcionamento. Bárbaro. Em um dos dias, tivemos uma troca de experiências entre um grupo de educadores brasileiros e o staff da Faculdade. Falamos das semelhanças e diferenças entre nós e senti muita vergonha quando um dos diretores, Rajneesh, perguntou-nos qual era o valor que nos unia enquanto nação. Nos enrolamos para responder, gaguejamos, falamos bobagens, o que significava para mim, que de fato não tínhamos um valor. Para eles, o respeito pela nação era o que os unia. Lembrei-me da Copa do Mundo de 2014, quando os brasileiros começaram a abandonar a arquibancada ainda no início daquele inesquecível jogo contra a Alemanha. Respeito ao país? Não temos. Temos valor? Hummm...

Além de outras ricas trocas, a própria reitora, Indira Parikh nos conduziu ao que ela chamou de Magic Lab, numa experiência inesquecível e realmente mágica de auto e heteroconhecimento. Além de nos proporcionar em sua própria casa, um jantar com educadores de didáticas diversas e nos levar ao seu quarto para mostrar os seus saris. Sentada em sua cama, pensava nessa rara, rica e diferente experiência. Que maravilha!

6 de mar. de 2015

140. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Srishti School (Bangalore).


Srishti School of Art, Design and Technology fica em Bangalore, principal hub de alta tecnologia e telecomunicações da Índia. Também conhecida como o coração do Vale do Silício Asiático. Cidade bem desenvolvida, mas como toda a Índia, também repleta de pobreza. Em Sristhi, há um projeto bem interessante e que pude vive-lo tal qual os fundamentos que ele proclama. Primeiro, a experiência. Explorar sem muito pensar. Segundo, pensar a respeito e de diferentes formas. Terceiro, voltar-se à experiência modificando-a. E foi exatamente assim que a Faculdade nos recebeu. Com um grupo de alunos do primeiro ano, ano que é destinado, intencionalmente para bagunçar os conceitos. Participamos dos conhecimentos de Kabir, o místico e popular poeta do século XV, que nos foi apresentado por músicas, histórias, documentários, vivências corporais, vivências sociais e depoimentos de diversos indianos que diziam da origem e da morada do conhecimento, enquanto expressavam seus modos de ver a vida, de dar sentidos a ela e encontrar sua missão na mesma. Pensamentos que pareciam alcançar uma ideia comum: o ser interior. Leia alguns retirados dos depoimentos.
“O conhecimento mora na experiência e então suas ações determinam quem você é!”; “Mas quem determina o que é bom ou ruim?”; “Minha ação é a minha religião.”; “Se você aprendeu só em livros, o seu conhecimento está limitado entre A a Z. É preciso ir além disso.”; “Muito do conhecimento já está em nós. É preciso saber olhar.”; “Se você enxerga a guerra fora é porque você tem a guerra dentro. Se você vê o amor fora, é porque você vê o amor dentro.”; “Muito do conhecimento, que vai além do A a Z, só pode ser encontrado no silêncio.”; “A verdade está nos seus olhos e há coisas que não se nomeiam.”; “Eu achei Deus na pupila dos meus olhos!” E assim seguiu, até o momento que conversamos com os alunos fazendo trocas de conflitos gerados pelo o que tínhamos já construído em nós e pelo o que foi ali apresentado. Muito rico o modo com os indianos vêem essas questões. Colocou-me para pensar. Objetivo atingido: provocou-me a desestabilização dos conhecimentos já construídos. Maravilha! 
Um rápido lanche e então, uma exposição liderada pela coordenadora Arzu Mistry sobre como a Faculdade se desenvolve, os seus projetos interdisciplinares e reais e como ela age de forma transformadora na comunidade. 
Almoçamos, sintetizamos o que vimos mediante os nossos corpos numa vivência interessante e fomos à prática, ver alguns projetos já vivenciados e outros ainda em construção.
Um deles me encantou. Os alunos de 4° e 5° anos visitaram comunidades carentes em busca de entender melhor a cultura popular. Foram em busca de metáforas, de conhecimentos, de histórias e relatos para então voltarem à faculdade e transformar o que detectaram em uma história infantil que voltaria depois à comunidade. Um encanto de projeto e de uma qualidade fantástica. Fez arrepiar. 
No dia seguinte, fomos a uma das sete comunidades que a Srishti apoia, oferecendo ajuda múltipla para trazer de volta as crianças e jovens que haviam abandonado a escola. Assim, dentro da comunidade e com a grande colaboração deles propiciam ampliar os horizontes de todos. Outro projeto de arrepiar. Estivemos com alguns alunos que deram belíssimos depoimentos de superação. Mostraram o funcionamento genial da escola e as possibilidades que se abrem a eles. Alguns já em faculdades, outros em trabalhos que antes nem podiam imaginar, falavam e apresentavam o seus crescimentos.
E a noite, jantamos com o staff da Faculdade, cada qual expondo o seu projeto principal dentro daquele vivo sistema educacional transformador de mundos e gentes. Aplausos, aplausos, aplausos. Propostas que fazem sentir e sentido. Bravo!


25 de fev. de 2015

139. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a metáfora do conhecimento.

Entrada da Biblioteca. Torre vista de fora. Vista da torre.

No Centre for Learning, em Bangalore, vi na biblioteca a metáfora da aprendizagem e da construção do conhecimento. Entrava-se pela porta principal, e ali via-se os livros em estantes em que todos pudessem ter acesso. E uma professora que explorava os livros com um grupo de crianças pequenas. (Como se naquele estágio servisse à apresentação do conhecimento e de suas possibilidades.) No meio do grande salão, via-se uma escada em caracol que levaria a um outro patamar, iluminado, sem tantos estímulos e voltados ao silêncio. (A apropriação do conhecimento requer luz, calma, degrau por degrau num espiral crescente enquanto apura-se em silêncio e individualmente o que se está aprendendo.) Desta parada, encontra-se outra escada. Agora  bem inclinada e reta que dá em um platô menor, porém também iluminado, e onde se encontra um baú. (Uma boa simbologia para "pousar" o conhecimento já apurado e apreendido.) E do baú, uma nova escada. Agora mais íngreme e difícil, terminando em uma pesada tampa que indicava levar para novo patamar. (Como se o conhecimento, sempre inacabado, precisasse cada vez mais de desafios para ampliar-se e se tornar apropriado). A tampa aberta levava para a torre de onde se tinha uma visão surpreendente. Daquelas de tirar o fôlego. (Assim como a aprendizagem que amplia a nossa percepção para o mundo, possibilitando novas visões e ações.) E no alto da torre, um sino. Como se fosse preciso avisar a todos: Consegui!

22 de fev. de 2015

138. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a educação por projetos: Bangalore.

Dra Yasmin Jayathirtha, fundadora do Centre for Learning.

Em Bangalore, conheci dois projetos especiais. Um deles lembrou-me a deliciosa Escola Ágora em Cotia-SP onde aprendi muito enquanto ensinava. O outro, encantou-me o modo como nos foi apresentado, bem como a integração da instituição em sua complexidade. Um projeto vivido por vários ângulos. (Falarei dele no post de n.140.)
Centre for Learning fica há 40 Km de Bangalore, e assim como a Ágora, fica “em meio ao mato”, lugar privilegiado para muitos ensinos e aprendizagens, com espaços inimagináveis a serem explorados. Foi criado em 1990 por um grupo de educadores que queriam explorar a natureza da aprendizagem, a sua relação com os desafios atuais e o desenvolvimento do eu interior. Assim, baseados em Krishnamurti, fundamentaram a escola de forma não hierárquica, holística, interdisciplinar, introspectiva, provocando mais perguntas do que oferecendo  respostas. Não trabalham com recompensa e nem punição. E buscam que o ambiente educativo  traga conforto e segurança para que os alunos possam ser vulneráveis, enquanto buscam a própria verdade.

Tive o privilégio de participar de uma das aulas, que durou cerca de duas horas. Voltei no tempo e me vi com meus alunos, há tantas e tantas milhas dali. Eram dois professores, cerca de doze alunos de 10 a 11 anos, Ana Lucia Guimarães (querida amiga e educadora) e eu. Todos sentados no chão, com os pés descalços e no mesmo círculo. A aula deu início com os professores calmamente perguntando o que os alunos haviam aprendido na aula anterior. (Bravo!) E alunos respondiam com a mesma calma, sem nenhum tumulto. (Bem diferente da nossa realidade!) Esse início já me deixou claro que a aula seria produtiva e construtiva. Logo o professor passou um filme sobre o que estudavam: dinastia chinesa. Provocava reflexões, novas perguntas que não eram por ele respondidas, mas que devolvia aos alunos proporcionando-lhes inquietantes e novas questões, além de muito crescimento. Os alunos mostravam muita atenção, participação, curiosidade e respeito aos outros enquanto construíam seus conhecimentos. E cada um deles anotava, em esquemas, o que achavam pertinente. O professor não dizia: “Isso é para anotar.” “Posso apagar?” Não! Os alunos eram educados para serem autores do conhecimento, da própria vida, com autonomia e responsabilidade. Cada caderno era diferente do outro. (Aleluia!) Após essa rica troca, mudamos para a sala ao lado, que era muito parecida com a que estávamos. Ou seja, não tinha quase nada. Mas esta tinha um quadro que a diferenciava. E dos dois professores, brotavam ainda mais debates, reforçando com as crianças os novos conhecimentos (A neurociência agradece!), enquanto propunham a atividade a ser feita em casa. Os alunos deveriam se imaginar pertencentes a dinastia chinesa e escreverem em forma de uma peça teatral, ou uma carta, ou dialogando com alguém da mesma época. Enfim, deveriam ser bem criativos para apresentar o que sabiam. Isso me lembrou eu mesma. Adoro proporcionar tarefas assim, pois sei que o cérebro do aluno adora. Nada melhor do que transformar dever de casa em prazer de casa. (Atenção professores!). 
Aula do querido professor Navneeth.

Interessante que ainda almoçamos com eles, ficamos boa parte do dia por lá e não vi nenhum smartphone, nem tablets, nem celulares comuns nas mãos dos alunos ou de professores. Mas vi muito conhecimento vivo e de vida sendo alí construído. (Boa refexão a se fazer.) E, em meio a intensa vegetação, lá estava a biblioteca com uma metáfora pronta sobre a aprendizagem e a construção do conhecimento. Contarei na próxima postagem, para então falar de Srishti com seus lindos e integrados projetos.