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21 de ago. de 2014

113. EDUCAÇÃO PELO MUNDO.FINLÂNDIA: X. A voz do leitor.


Visitei entre outras, na Finlândia, uma escola para crianças de 1 a 3 anos. Escrevi na minha coluna da Revista Pais & Filhos as minhas impressionadas impressões e lições tiradas dessa visita. Vale a pena conferir. http://www.paisefilhos.com.br/blogs-e-colunistas/de-olho-no-cotidiano/elevar-a-crianca-grande-licao
Recebi comentários em redes sociais, mas um deles chamou-me a atenção e o coloco em discussão. Resumidamente, a coluna fala do desenvolvimento da autonomia, responsabilidade e independência desde a primeira infância. E, a diferença que isto faz no presente e futuro do ser em formação.
A brasileira Renata trabalha com educação infantil em Montreal, Canadá. Ela conta que lá a base da educação é essa mesmo: autonomia acima de tudo. “Se uma criança aprende determinada tarefa (colocar os sapatos por exemplo) nunca mais os pais a farão por ela.” Todavia, percebe nas crianças mais velhas, nos jovens e mesmo nos adultos uma grande dificuldade para lidar com a hierarquia e a autoridade. Nota muito desrespeito e desobediencia de todos para com todos. Então, questiona se isto não é fruto do desenvolvimento precoce da independência. Pois, se desde pequena a criança é tão acostumada ao “Je suis capable de le faire” (Sou capaz de fazer sozinho), como conseguirá cumprir ordens ou reconhecer uma autoridade? Para ela, tudo parece ser uma “reaçao em cadeia: criança autonoma/independente demais - adolescente idem que nao suporta autoridade - adulto que cresceu sem conhecer hierarquia/autoridade.” Faz sim sentido a sua inquietação. Contudo, vejo esse comportamento no Brasil, onde não é costume educarmos para a independência e autonomia. Então, o buraco parece ser mais embaixo. Pergunta ainda se vi isso na Finlândia ou se educação previne tal conduta. Eu não vi tal comportamento nem em escolas e nem nas ruas, mas vi uma educação com liberdade e limites bem claros. Porém, verifiquei com uma brasileira que já está inserida na cultura finlandesa por dois anos. Diana conta que há alguns jovens que fogem a regra, e que perdem os princípios básicos da educação, como em qualquer parte do mundo. Porém, nota que a maioria das pessoas, independente de classe sócio-econômica, respeita a autoridade alheia e “quando você conhece os seus limites e responsabilidades, a autonomia ou independência é consequência.” A disciplina e as regras, diz ela, libertam. Também faz muito sentido o que ela diz.
Eu continuo a crer que a melhor forma de educar ainda seja pelo desenvolvimento da autonomia responsável e com uma liberdade onde a criança, desde pequena, aprenda que está no mundo, com o mundo e com os outros. Eu percebo em minhas filhas adolescentes, que assim as eduquei, um enorme respeito a nós e aos outros, e reconhecem autoridades, inclusive a nossa. Todavia, é fato que os jovens de hoje não vêem hierarquia como víamos. O mundo não pára e nem a educação. Leia este post. http://filhosofar.blogspot.com.br/2014/02/92-o-jovem-de-hoje-foi-crianca-de-ontem_4.html

7 de ago. de 2014

112. EDUCAÇÃO PELO MUNDO XIX: Finlândia: Coerência do princípio ao fim.


Nas escolas visitadas na Finlândia, vê-se excelente estrutura, moderna e ampla, espaço transparente, organizado e limpo. Nos corredores, obras de artes feitas pelos alunos são repletas de mensagens, habilidades, liberdade e respeito à diversidade. 
Além das aulas do currículo básico, os alunos têm várias optativas. Aulas de línguas, instrumentos musicais, corte e costura, gastronomia, lavanderia, marcenaria, tecelagem entre outras, com salas incrivelmente bem equipadas. 
E claro que numa sociedade tão igualitária e com mão de obra tão cara, no mínimo, aprender a fazer de tudo é uma excelente opção. Meninos e meninas cozinham, costuram, soldam, martelam sem distinção. A maioria dos alunos tem aparência saudável, descontraída e feliz. E o clima difícil não os impede de nada. Equipamentos e roupas especiais fazem com que a vida continue e explorem os conhecimentos para além das salas de aula.
Em geral, a conversa iniciava-se com a direção, mas eram os alunos que nos apresentavam as escolas em movimento. Apesar de ainda jovens, mostravam-se bem posicionados, seguros e cientes do que diziam. Sabiam o que aprendiam, o por que aprendiam e como aprendiam cada coisa. Que maravilha! Mas isso não é milagre. Para se ter uma educação de referência, o professor tem mesmo que ser bom, dedicado, estudioso e gostar do que faz. Precisa desenvolver nos alunos diversas habilidades e competências, diversificar métodos de ensino pois cada aluno aprende de um modo e em um tempo. Usar ainda os diversos sentidos e tecnologias, e propor várias possibilidades de aprendizagem. E isso vi na prática. Cito um exemplo: Os alunos haviam escrito um texto sobre um dado assunto, usando caneta e computador. Depois transformaram-no em imagens, então em colagens e por fim em audiovisuais. E tudo era apresentado ao grupo. As neurociências aplaudem!
O professor divide ainda os alunos em grupos de acordo com as capacidades e habilidades, e para isso é preciso conhece-las e saber identifica-las. Como também, possibilita que os melhores alunos ajudem os que têm mais dificuldade para que todos sejam bons. Mas ele não trabalha sozinho. Tem o apoio de um equipe de profissionais, o que contribui para um trabalho que prima a unidade na diversidade, e à igualdade. E isso também vi. Os alunos não são competitivos, mas estimulados à convivência e à construção em conjunto, pois ninguém aprende sozinho.  “Se é para competir que seja consigo mesmo para ser melhor.”, diz Mikael Flemminch do Conselho de Educação.
E nota-se, na prática, que os alunos têm mesmo a responsabilidade, e  não sofrem tantas pressões. A avaliação, por exemplo, serve em especial, para trazer informações aos alunos e aos professores sobre os ajustes necessários tanto ao ensino quanto à aprendizagem. Bravo! Disse-me uma professora: "A escola não é lugar de competitividade e alta pressão. Mas sim lugar de fazer amigos, aprender e ser feliz." E assim parecia ser.
O que mais dizer?
Finlândia, coerência é o seu sobrenome. E qual o nosso?

4 de ago. de 2014

111. EDUCAÇÃO PELO MUNDO VIII: Finlândia: Inclusive, educação inclusiva.


Para uma sociedade igualitária, a Finlândia aposta, inclusive, na educação inclusiva. Sabem que a dificuldade de aprendizagem pode colocar o sistema educacional em risco. Então ficam atentos e cuidam para que os alunos tenham uma boa base e não fiquem com lacunas. A cada dois alunos, um vai para as aulas de reforço, por ter mostrado alguma dificuldade. Ou seja, não deixam gaps! Se ainda assim o aluno não vai bem, é feito a ele um programa especial com duração de seis semanas. Se funcionou, volta ao ensino regular. Se não, um novo programa é elaborado, totalmente individualizado, com materiais feitos para o seu perfil, no qual pais, professores, médicos, psicólogos participam. E, há ainda, a classe de baixa motivação, para  alunos que não querem aprender, com uma equipe especializada em ajuda-los a querer e a gostar de aprender. Mas, apenas 4-5% possuem realmente problemas de aprendizagem, porcentagem que é mundial. E este número vem diminuindo devido ao trabalho precoce que fazem já na Educação Infantil. No Brasil, esta porcentagem é bem maior. Resolvemos o problema dopando nossas crianças? Quantas delas tem reais problemas de aprendizagem? Quantas são apenas problemas de ensinagem? Sei que meus ouvidos ouviram e meus olhos viram que os finlandeses fazem o máximo para que o aluno possa integrar-se no programa de ensino geral e quase não há reprovação. É sem dúvida um país igualitário! Atenção escolas, professores, pais!!! Inspiremo-nos neles!

31 de jul. de 2014

110. EDUCAÇÃO PELO MUNDO VII: Cultura da confiança: Um sonho possível?

Alunos de 14 anos apresentando-nos o sistema educacional.

Em minha pesquisa, in loco, sobre o sistema educacional finlandês, fiquei encantada com a cultura da confiança. Os finlandeses confiam muito neles mesmos. A nação confia nos municípios que confiam nas escolas, que confiam nos professores, que confiam nos alunos. E os pais confiam em seus filhos e no sistema educacional. Não há supervisão se as escolas usam corretamente o dinheiro pedido. Não há sistema de avaliação nacional para verificar se as escolas estão realmente educando seus alunos. Não há supervisores observando se os professores estão de fato trabalhando. Eles conhecem a sua responsabilidade e têm autonomia para fazer com que os alunos aprendam. Não há bedel  de olho no aluno. O aluno é responsável pelo seu estudo e sua aprendizagem. Inclusive, ser aluno na Finlândia é visto como profissão e é levado bem a sério, também pelos pais que colaboram para o desenvolvimento dessa aprendizagem, sem chantagens e sem premiações. 
Quando foi perguntado a Mikael Flemminch, representante do Conselho de Educação, o que faziam quando esta confiança era quebrada, ele riu. Pois esta confiança não é quebrada. Esta é uma verdadeira lição às escolas e aos pais: quando se dá liberdade com uma boa formação à autonomia e à responsabilidade,  e dá o voto de confiança àquele que a recebe, pode se ter certeza que haverá frutos. Afinal, o que de fato ensina uma supervisão (um super olho) a cada passo dado? Orientar sim, oferecer apoio, confiar na orientação dada e naquele que a recebe. Quer apostar como dá certo?
Mas alguém pode dizer: Mas aqui na cultura da desconfiança????
Há 25 anos, em minha primeira experiência como professora de Fundamental I, recebi a seguinte instrução da Diretora que me contratava: “Quero que você desenvolva nos alunos a responsabilidade e a autonomia. Para isso, você terá liberdade para desenvolvê-las em si mesma, pois só ensina o que se tem. E saiba que estaremos aqui para quando precisar, para quando não souber o que fazer, para quando se perder, se achar ou quiser compartilhar.” Confesso que eu tinha a maior motivação para fazer o melhor trabalho que eu poderia. Sentir a responsabilidade da confiança e saber-se livre para criar, ousar, conhecer, estudar fez toda a diferença. Esta escola foi uma faculdade para mim. Não só como professora, mas também depois como mãe, onde verifiquei que a cultura da confiança é possível. Afinal, a cultura também somos nós que a fazemos.

25 de jul. de 2014

109. EDUCAÇÃO PELO MUNDO VI: A educação na Finlândia


 Prá quem acha que Finlânida é sinônimo de Papai Noel, Nokia e Angry Birds, pode ampliar a sua visão. É também a terra da educação de sucesso. Uma das melhores do mundo. Mas como?
A Finlândia foi destruída com a guerra, tornou-se independente há quase 100 anos, com uma população pobre e carente de estudos. É quase uma ilha, é bilíngue (Finlandes e Sueco) e tem um clima bastante cruel. Como conseguiram fazer diferença com tal perfil? Vamos em partes.
Em seminários com representantes do Conselho Educacional Finlandês, sob a chancela do Ministério da Educação e Cultura,  percebe-se que o sistema educacional é bem descentralizado. O Ministério da Educação traça as políticas educacionais e o enxuto Conselho Nacional de Educação coloca-as em prática. Elabora as diretrizes curriculares, que são adaptadas pelos municípios de acordo com sua realidade. As escolas adaptam-nas às necessidades locais, assim como os professores de acordo com a realidade e as necessidades dos alunos. O Conselho ainda, em amplo diálogo com as escolas, levanta dados (dos alunos, dos professores, dos métodos, dos problemas), analisa-os, compartilha com todas as escolas em busca de rápidas soluções. São cientes de que a educação deve ser cuidada no agora, mas também para um futuro, e para isso é preciso saber prever e resolver problemas. Levantam então as habilidades e competências atuais e as que se farão necessárias e traçam mudanças. Nota-se a ênfase dada à metacognição, à resolução de problemas e tomada de decisões, à criatividade e inovação, à colaboração e negociação, à cidadania e responsabilidade, às novas profissões, à comunicação em diversos idiomas, dando recursos para o desenvolvimento integral do aluno, abrindo-lhes portas de oportunidades sem fronteiras. E a educação funciona, pois há uma cultura da confiança onde todos são educados para trabalharem com liberdade, responsabilidade e autonomia em prol de um bem comum. Não há barganhas, não há falcatruas, não há supervisão. Há solução em todos os setores da sociedade. Cada um reconhece o seu papel e faz.

Claro que estamos falando de um  país com um pouco mais de 5 milhões de habitantes, com uma sociedade que prima pela igualdade, por desenvolvimento de mundos e gentes e que investe a longo prazo. Desde a década de 60, a educação básica é gratuita e obrigatória, e a partir da década de 70, o grau de mestre, a todos os docentes, tornou-se requisito mínimo necessário. O professor é muito valorizado e respeitado, e formado para ser consciente do seu papel social e da grande influência nas gerações futuras. Já o Brasil tem mais de 200 milhões de habitantes, a educação não é valorizada, temos uma cultura imediatista, oportunista e da vantagem, o que dificulta mudanças e implementações de ideias. Mas é possível mudar? Sim. Basta olhar os finlandeses. Resgataram a auto e heteroconfiança, educam bem o seu povo e com fortes princípios, não se acomodam, traçam sempre novas metas e com atitude as alcançam. Ficam aí as primeiras lições. Aguardem as próximas.

7 de jun. de 2014

104. EDUCAÇÃO PELO MUNDO I: Primeiras Impressões


Tulipas
Estive no mes de Maio em pesquisa educacional na Finlândia e Rússia juntamente com uma delegação de educadores. Nosso país é campeão nas últmas colocações do ‘Programa Internacional de Avaliação de Estudantes‘ e por isso fomos conhecer de perto, e aprender, o que os países com bons resultados fazem. No ano passado, fomos a China uma das mais bem colocadas no ranking. Veja as postagens de número 70 a 76. Agora, nos próximos posts tratarei do que percebi e aprendi nas visitas em escolas e universidades, e na participação em seminários sobre o sistema educacional destes países, e as consequências desta educação na vida dos alunos e da própria sociedade. Primeira parada: Rússia.
Moscou e São Petersburgo, as cidades visitadas, são magníficas nos monumentos arquitetônicos mostrando riqueza, história e arte. E o seu povo, produto da educação que recebe, mostrou-se bem educado, amável, discreto e disciplinado. Vê-se pouquíssima obesidade, um povo bem arrumado, inclusive os alunos. Fiquei a pensar se uma vestimenta interfere na organização escolar. Mas vê-se também depressão, prostituição e problemas de alcoolismo. O clima afeta sim as histórias de vida. Impressionou-me ainda os jardins e a limpeza, especialmente em Moscou. Não vi um papel no chão por onde andei, e notei pouquíssimas lixeiras. E em meio ao trânsito intenso, via-se lindos canteiros de tulipas e muitas macieras floridas. Eu que já desenhei tantas macieiras na escola, dei-me conta de nunca havia visto uma. Mas nem tudo são flores apesar da primavera. Aguardem a próxima parada.

Arquitetura - Igreja de São Basilio
Limpeza do Metrô-Museu
As Macieiras em flor
A elegância das crianças