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15 de jul. de 2014

108. EDUCAÇÃO PELO MUNDO V: Uma aula no Balé Bolshoi.

Credito: Reuters: Denis Sinyakov

Em Moscou, tivemos o privilégio de assistir uma aula em uma das mais antigas e prestigiadas companhias de dança do mundo: Companhia de Balé Bolshoi. Nela, os meninos, escolhidos a dedo, ficam dos 10 aos 18 anos, com disciplina, treino e vida digna de seus espetáculos. Entre eles estava o brasileiro Soares, cheio de sonhos, planos, determinação, consciente e agradecido por ser um privilegiado pela oportunidade. A aula aconteceu no teatro da escola. No grande palco cerca de 10 garotos esguios com cerca de 17 anos  aqueciam-se nas barras, com malhas que delineavam os perfeitos músculos.  Seus movimentos eram leves, limpos, graciosos e precisos.  Logo adentrou o professor, vestido de terno e gravata e se colocou na plateia dando o primeiro comando enquanto tirava o paletó. Era amável, doce, suave, mas também rígido e direto. Com os meninos já aquecidos, deu-se início pelos movimentos básicos, que iam tornando-se mais complexos conforme a perfeição dos movimentos. Assim, como deve ser a boa aprendizagem. O professor não poupava críticas nem repetições. Era claro, que ali não havia um grupo, mas uma equipe. Se um errava, a bronca era nomeada, mas todos repetiam. Aos poucos, e de forma bem dinâmica, foram fazendo movimentos em dupla, trios, quartetos, numa coordenação e velocidade que nos tirava o fôlego. Que seja assim também em nossas salas de aula.
Que privilégio! Que aquecimento, riqueza e aprendizado à alma, à educação e aos sentidos! Saí leve, dando piruetas no ar.

11 de jul. de 2014

107. EDUCAÇÃO PELO MUNDO IV: Rússia: Recuperação de prestígio pela educação.

Seminário do Ministério da Educação Russa

O interessante de conhecer a educação de outra cultura é poder notar as diferenças e semelhanças em relação a nossa e ver o que podemos refletir e aprender.
Nota-se que a Rússia tem como meta a reforma educacional para dar conta da mudança político-econômica e retomar o prestígio mundial. Até 2021 todas as escolas terão que adotar os princípios educacionais estabelecidos pela nação, com foco tanto na prática pedagógica quanto na formação docente. Parece óbvio repensar a educação junto com tal formação, mas nem sempre se vê por aí ou por aqui. Nos pressupostos da reforma, percebe-se, entre outros, muita influencia dos princípios educacionais finlandeses, bem como de Paulo Freire, citado nos seminários organizados pelo Ministério da Educação da Rússia.
Mas que mudanças investem ou já adotam?
O papel do professor foi revisto para dar conta deste novo contexto. Os professores devem ter formação pedagógica com educação continuada a cada três anos. E aqueles sem experiência  tem um tutor para ajuda-los no saber fazer pedagógico. Aqueles com menos formação trabalham com as crianças pequenas, o que na minha opinião é um grande erro, visto que a base do desenvolvimento se dá na educação infantil, e portanto, onde deveriam estar os mais preparados e os mais experientes.
Se antes a meta era fazer o aluno confortável e cômodo à escola, agora tratam de fazer a escola confortável e cômoda ao aluno, desenvolvendo-lhe o interesse por estudar. Perceberam que não basta conhecer, mas sim ensinar o aluno a aprender a aprender. Desenvolver-lhe a capacidade de identificar e aplicar na prática o conteúdo aprendido, bem como relacionar a matérias. (Bravo!) Citam como exemplo a matemática que sempre foi muito forte entre eles. Hoje cuidam para que as regras se apliquem no mundo real dando maior sentido. E transparecem que o maior orgulho deles está na escola primária onde já ensinam através do aprender a fazer fazendo. Todavia é mais fácil neste nível de ensino, onde os conteúdos são mais básicos e os alunos menos condicionados. Contudo, seguem em desafio.

A escola deve ainda dar ênfase na  comunicação, aumentando a capacidade linguística dos alunos, a segurança, dando espaço para  que defendam seus pontos de vista e não se acanhem na resolução de novos problemas. 
Alunos apresentando-nos o sistema educacional russo.
Dar voz e vez ao aluno é realmente uma grande quebra de paradigma entre eles, mas necessária nos novos tempos. Contudo, na prática, percebi os professores muito arraigados num modo de fazer, com pouca fluidez e espontaneidade, e com um olhar sobre os alunos, que sem dúvida os intimidava. Claro, leva tempo mudar comportamentos tão incorporados, tanto em alunos quanto em professores. Mas pareciam dispostos a tal.
Alunos apresentando os livros lidos.
Plateia não tão animada.
À escola cabe ainda utilizar-se do método da problematização com base na metacognição, que consta em desenvolver nos alunos a faculdade de conscientizar, analisar e avaliar como se conhece, e pensar sobre o próprio pensamento. Concordo com a escolha. E, como é um método relativamente novo a eles, os melhores professores ensinam aos demais as competências necessárias para tal, multiplicando este novo jeito de ensinar e aprender. Há ainda um espaço virtual criado para que todos da comunidade educativa, inclusive os pais, possam interagir, estudar e aprender.
Aluno demonstrando as suas descobertas.
A escola deve ainda Introduzir novas tecnologias ao processo educacional, mas sem deixar de incentivar os trabalhos manuais. Também desenvolver nos alunos diversas competências, usar os diversos sentidos e diversificar tecnologias para as aprendizagens. E isto realmente vi na prática. Estão aprendendo a viver a teoria, enquanto as neurociências aplaudem!
Todavia, se percebi uma prática com ranços do tradicionalismo, percebi um discurso mais renovado. Agora é aguardar prá ver o que será. Mas uma coisa eu sei, é preciso querer caminhar, e caminhar. E isso eles estão fazendo.
Na próxima postagem, leia um presente recebido: tive o privilégio de assistir uma aula na Companhia do Balé Bolshoi. Aguarde.


7 de jul. de 2014

106. EDUCAÇÃO PELO MUNDO III: Algumas curiosidades da educação russa.

Visitamos várias escolas, na maioria públicas, tanto em Moscou quanto em São Petersburgo. Apenas 1 % das crianças estudam em escolas particulares. O ensino pode ser presencial, semipresencial (muito usado por atletas) ou por correspondência (em geral, opção de pais mais progressistas.) Cada escola visitada tinha suas especificidades, mas falemos do geral.
Logo na entrada, via-se vários sapatos pelo chão, pois não se entra na escola com os sapatos vindos da rua, nem na Russia, nem na Finlândia. Nem no verão. 

Chamou-me a atenção, o entusiasmo dos professores e diretores, a vontade de investir em qualidade de ensino e a quantidade de docentes para cada aluno. Em média eram 2,5 alunos por professor. Era frequente ver professores dedicando-se a um único aluno, àqueles com maior dificuldade. 

Vi muitos docentes idosos e era difícil a entrada dos mais jovens. Todavia, há uma mudança na valorização da profissão e as reformas educacionais estão fervilhando. Creio que haverá mudanças neste cenário.

Nos corredores silenciosos e limpos, via-se movimentação organizada, alunos formalmente vestidos e bem comportados.

Há um documento de direitos e deveres dos alunos que constam ainda das regras comportamentais, ditadas sem a participação dos mesmos. Apesar do autoritarismo ainda empregnado, era visível a busca por um ensino e relações mais democráticas. Uma das escolas reforçava o lema: “Valorize a tradição, porém siga em frente!” 

Ao perguntar sobre bulling e desavenças entre os alunos, uma das diretoras responde que hoje as crianças brigam menos, pois estão ocupadas em seus jogos eletrônicos. Esta questão dá pano para mangas!


Era visível, pelas paredes das escolas, a valorização que davam aos seus poetas, cientistas, escritores e o quão priorizam a arte de uma forma geral e incentivam o aluno a tal. 

As escolas respiravam arte, assim como as ruas, repletas de importantes museus, monumentos e belíssimas construções históricas. Sim, a cultura diz de seu povo! 
Catedral de São Basilio- Moscou
Museu Hermitage- São Petersburgo
Palácio de Catarina- São Petersburgo
Pelas salas, via-se aulas de música, desenho, pintura, fotografia, cinema, cerâmica e diversos estúdios. E há muitas apresentações para que os alunos desenvolvam e mostrem os seus talentos, também nos esportes.

Segundo eles, não com o objetivo de que se tornassem estrelas, mas para que tais habilidades pudessem beneficiá-los nas profissões escolhidas. Brilhante pensamento! E no que seria o nosso Ensino Médio, os alunos podem escolher as disciplinas que vão de encontro com a profissão almejada, aumentando seus interesses e melhores condições de êxito no futuro. Vale a reflexão.

Ao perguntar a um grupo de alunos quais as características do bom professor, eles disseram: ele deve gostar dos alunos, ser objetivo, ter boa comunicação, ter a mente aberta, métodos para captar a atenção dos alunos, não ser nem soberbo nem tão brincalhão. Belo recado.
Para concluir, diria que os russos estão atentos e apressados na adaptação dos novos tempos. Tema da próxima postagem. Até lá.

11 de jun. de 2014

105. EDUCAÇÃO PELO MUNDO II: Tá Russo!


A Rússia lembra o Brasil em certos aspectos. É grande na geografia, na população e nas carências. Talvez a maior delas seja a real liberdade. Afinal, a história de um povo deixa nele muitas marcas, inclusive em seus governantes, apesar das mudanças. As lindas estações de metro de Moscou, luxuosas e repletas de obras de artes com referencias históricas e politicas do país, tinham como meta serem símbolos de que o comunismo seria o futuro. Mas o McDonald‘s venceu! E o comportamento capitalista mostra-se no prestígio de quem tem carros e roupas importadas. Também o padrão chega as escolas, repletas de Macintoshes e outros equipamentos importados. E, quem tem mais aluno, recebe maior financiamento do governo. Assim, a concorrência é acirrada e requer novas aprendizagens em investimento, excelência, administração e marketing. Vê-se ainda nas escolas a marca do totalitarismo, mas as reformas educacionais prometem mudanças. A primeira delas é adequar a escola às pessoas e não o contrário como até então se cumpriu. Mas, sabemos que mudanças paradigmáticas são lentas, pois a cultura já incorporada nos seres dificulta a percepção das reais transformações necessárias. Vamos aguardar. Todavia, notei nos seminários e nas instituições educacionais um misto de teorias  fundamentando a filosofia e a prática pedagógica, não apregoando uma forte identidade. Porém, são pressupostos interessantes, que podem dar uma colcha de retalhos ou um mágico caleidoscópio. Falaremos mais disso na próxima postagem.

A tradição
A inovação
O respeito. Alunos levantam-se ao entrarmos na sala.


7 de jun. de 2014

104. EDUCAÇÃO PELO MUNDO I: Primeiras Impressões


Tulipas
Estive no mes de Maio em pesquisa educacional na Finlândia e Rússia juntamente com uma delegação de educadores. Nosso país é campeão nas últmas colocações do ‘Programa Internacional de Avaliação de Estudantes‘ e por isso fomos conhecer de perto, e aprender, o que os países com bons resultados fazem. No ano passado, fomos a China uma das mais bem colocadas no ranking. Veja as postagens de número 70 a 76. Agora, nos próximos posts tratarei do que percebi e aprendi nas visitas em escolas e universidades, e na participação em seminários sobre o sistema educacional destes países, e as consequências desta educação na vida dos alunos e da própria sociedade. Primeira parada: Rússia.
Moscou e São Petersburgo, as cidades visitadas, são magníficas nos monumentos arquitetônicos mostrando riqueza, história e arte. E o seu povo, produto da educação que recebe, mostrou-se bem educado, amável, discreto e disciplinado. Vê-se pouquíssima obesidade, um povo bem arrumado, inclusive os alunos. Fiquei a pensar se uma vestimenta interfere na organização escolar. Mas vê-se também depressão, prostituição e problemas de alcoolismo. O clima afeta sim as histórias de vida. Impressionou-me ainda os jardins e a limpeza, especialmente em Moscou. Não vi um papel no chão por onde andei, e notei pouquíssimas lixeiras. E em meio ao trânsito intenso, via-se lindos canteiros de tulipas e muitas macieras floridas. Eu que já desenhei tantas macieiras na escola, dei-me conta de nunca havia visto uma. Mas nem tudo são flores apesar da primavera. Aguardem a próxima parada.

Arquitetura - Igreja de São Basilio
Limpeza do Metrô-Museu
As Macieiras em flor
A elegância das crianças