Na postagem anterior, escrevi sobre estes meninos de 8 e 6 anos, cuja mãe os ensina às atividades domésticas como um trabalho de equipe. E vimos quantas HABILIDADES estão por trás destas atividades tão necessárias ao HOJE quanto ao AMANHÃ destas crianças. (Leia: O que as tarefas domésticas podem causar aos seus filhos?). Hoje é dia de faxina de novo, e lá estão elas a repetí-las. Quando aprendemos algo novo, NOVAS CONEXÕES NEURONAIS são formadas, mas estas precisam de REPETIÇÃO para se estabelecerem. Por isso, manter uma ROTINA é tão importante. Sim, eu sei, dá trabalho ENSINAR. E GASTA tempo. Concorda que seria bem mais fácil à mãe, por exemplo, lavar a louça do que ensinar para as crianças? E ainda podemos imaginar o chão todo molhado, o uso exagerado de detergente e até a espuma no teto. Eu já passei por isso, sei bem como é. Mas como DESENVOLVEMOS mesmo? APRENDENDO. E como aprendemos? Na EXPERIÊNCIA, isto é, FAZENDO. A mãe está GASTANDO o seu tempo sim, mas mais à frente estará GANHANDO TEMPO, pois os meninos já estarão mais habilidosos e poderão contribuir bem mais, não só com a louça, isto eu garanto. Já provei e aprovei destes ganhos. Muitas vezes, é mesmo preciso PERDER PARA GANHAR. Então fica a sugestão: Gaste este tempo agora. E se prepare para contabilizar os inúmeros ganhos.
Oriento FAMÍLIAS, seus FILHOS e formo PROFESSORES. Este BLOG traz conhecimentos experimentados na minha prática com reflexões e dicas para quem ENSINA e APRENDE. Contato: email: prof.ligiapacheco@gmail.com Instagran: @ligiapa
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16 de mai. de 2020
11 de mai. de 2020
227. TROQUE A PALAVRA “AJUDA” POR TRABALHO DE EQUIPE.
Neste período de confinamento, muitas mães, mais do que nunca, estão berrando por socorro. E é muito comum elas dizerem aos membros da família: “Ninguém me ajuda!” Analisemos esta frase: Ao dizer que “ninguém te ajuda”, você está dizendo que esta tarefa é sua. E é? Creio que não. Que tal começar a desenvolver na sua família o trabalho de equipe? Este é um momento incrível para reeducar toda a família. Que tal todos participarem de tudo, dividindo as tarefas conforme a faixa etária? Todos podem participar, inclusive os pequenos. Você acha que a criança é pequena demais para fazer seu próprio lanche? Ensine-a e verás. Você acha que ela é pequena demais para colocar e tirar a mesa? Ensine-a e verás. Será que é pequena para varrer, lavar, arrumar a cama e o próprio quarto? Ensine-a e verás. Nós subestimamos muito a criança. Muitoooo. Quando pensar que o seu filho ou a sua filha são pequenos demais, lembre-se que uma criança de 2 anos já é capaz de correr, falar, dançar fazer graça e birra. Já é capaz de perceber os seus pontos fracos e estrategicamente cutucá-los. E se tiver espaço, este pequeno ser já é capaz de mandar em toda a família e ainda com o dedo em riste e com autoritarismo. Não é? Reeduque sua família. Fazer atividades domésticas ensina muito, inclusive conhecimentos escolares como escreverei outro dia. E toda aprendizagem leva a desenvolvimentos. Troque a palavra ajuda por trabalho de equipe. No começo não será tão fácil, em especial se todos já estiverem acostumados a serem servidos. Mas leve isto a sério e verás o quanto ganhará, não só você, mas toda a família.
7 de mai. de 2020
225. LIDAR COM A FRUSTRAÇÃO SE APRENDE.
Achei um encanto esta carta para a fada dos dentes, que recebi da avó da criança. Pelo conteúdo, imagino que a mãe, que deve estar levando a quarentena a sério, não poupou a filha do sentimento da FRUSTRAÇÃO, uma vez que até a fada está em quarentena, ainda que o dente da criança tenha caído. QUAL O MELHOR MOMENTO PARA SE TRABALHAR COM A FRUSTRAÇÃO? Quando ela acontece. A frustração ocorre quando um desejo ou uma expectativa não são satisfeitos, e facilmente causam um sofrimento e um DESEQUILÍBRIO EMOCIONAL. Mas quem é que quer ver o seu filho(a) assim? Resultado: POUPAMOS a criança e fazemos o que ela quer e na hora que ela quer. Mas, ao protegê-la estaremos de fato a desprotegendo, pois ela não aprenderá a lidar com este sentimento. E não temos como evitá-lo seja na escola, no playground ou em qualquer situação em que não estamos presentes. Assim, se você quer realmente proteger o seu filho, ENSINE-O A LIDAR COM ESTE SENTIMENTO o quanto antes. COMO?
1. Não o poupe, mas o acolha. Abrace-o e diga que você entende a sua tristeza e o seu querer, mas que não é possível realizá-lo naquele momento.
2. Converse com ele, deixe-o colocar o que sente para fora, ainda que não saiba nomeá-lo.
3. Busquem alternativas de como resolver aquele desejo não realizado.
4. Ajude a criança a dar forma ao que sente.
Na nossa ilustração, a criança escreveu para a fada. DEU FORMA À SUA FRUSTRAÇÃO, colocou-a para fora. Isto ajuda a criança a elaborar e a lidar com este difícil sentimento. A criança pode ainda desenhar, dar ideias de como farão depois, vocês podem criar um diálogo com os bichos de pelúcia que “estão na mesma situação”, enfim, use a imaginação, mas não desproteja seu filho ao tentar protegê-lo. LIDAR COM A FRUSTRAÇÃO SE APRENDE. E SE APRENDE, ENTÃO SE ENSINA. Seja você este mestre.
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3 de mai. de 2020
223. ACERTE NA MOSCA COM A CRIANÇA
Certa vez, uma professora preparava as crianças para o feriado: “Não teremos aula amanhã, pois é dia de TIRADENTES.” Uma criança começou a chorar, levantou-se e saiu em desespero pelos corredores da escola. A professora assustada foi conferir o que ocorria. E a criança, aos soluços, clamou: “ Eu não quero tirar meus dentes!!!!”
Esta é uma dica a nós adultos. A criança, por conta de seu desenvolvimento cerebral, percebe a realidade de modo muito concreto e leva tudo ao pé da letra. Ops! Aqui ela já perguntaria: “Como é o pé da letra?” Assim, tudo o que falar à criança lembre-se que o mundo interno do adulto é completamente diferente do da criança. Procure não falar pelos cotovelos, não pise na bola, nem meta os pés pelas mãos, mas faça das tripas coração para não dar um tiro no pé e acertar na mosca. E agora releia esta última frase como se tivesse a mente concreta da criança e veja como é difícil a ela compreender muito do que falamos. Vamos dar o braço a torcer. Ui! Torci! Doeu!
5 de set. de 2019
219. MÃE, O QUE É SEXO?
A criança tinha 8 anos, mas a mãe já estava a postos para a pergunta. Havia lido blogs, comprado livros, conversado com psicólogas. Sabia exatamente o que responderia à filha, o que os seus pais não a conseguiram responder: “O que é sexo?” E este tabu ela não queria repassar. Queria poder falar abertamente com a filha, o que não conseguiu com os seus pais.E eis que chega o dia. A criança fazia as suas tarefas, quando perguntou:
- Mãe, o que é sexo?
Naquele momento a mãe corre ao quarto, volta carregada e expõe livros infantis sobre o tema, espalhando-os pela mesa. O olhar curioso da criança avança e logo a mãe se propõe a explanar. Ao final, faz algumas perguntas e a filha responde sem tanto envolvimento e interesse para frustração da mãe. Logo volta à sua tarefa e lança mais uma pergunta:
- Mãe, mas o que eu coloco aqui na ficha. Sexo F ou M?
Ou seja, era preciso contextualizar antes a pergunta da criança. Às vezes criamos tantas expectativas em algo e o planejamos tanto, que esquecemos de observar o mais importante. Quer uma dica que não falha às perguntas? Sonde o que a criança quer de fato perguntar. Busque entrar no mundo dela, que aliás é bem diferente do seu, pois cada um percebe o mundo à sua maneira de acordo com os recursos que tem. Deixe o diálogo fluir, deixe a criança se expressar. E busque ampliar sim o mundo dela, mas com cuidados. Afinal, são tantas possibilidades de assuntos e diálogos! Entre tantas, pode ser sobre o questionário, sobre a diferença de sexo e gênero, dar até esta aula sobre sexo se a conversa assim fluir. Mas é bom que os assuntos partam da necessidade da criança e não da nossa.
Que tal assim?
- Mãe, o que é sexo?
- Onde está aparecendo a palavra, Filha? Deixe-me ver com você.
E assim contextualizando, e em diálogo, você pode melhor ajudar seu filho(a) a compreender a si e o mundo ao seu redor.
27 de jun. de 2018
216. AS EMOÇÕES DOS PAIS MUITO DIRÃO DAS EMOÇÕES DOS FILHOS.
Se você não leu a postagem
anterior, sugiro que a leia, pois fundamenta a emoção e o sentimento, que
servirão de base para o melhor aproveitamento desta postagem.
Por que as emoções dos pais
dizem das emoções dos filhos?
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| Photo by Nathan Shively on Unsplash |
Porque os filhos sem
maturidade suficiente para gerir as emoções, imitarão seus pais. E esta
experiência será registrada em suas memórias e servirá de base para futuras
experiências semelhantes.Vamos a um exemplo: Cada vez que o pai da criança
interpreta como injusta a ação do árbitro, ele bufa, gesticula, berra com a TV
o xingando. O que acontece? A ação do árbitro entra sem “colorido” no cérebro
do pai através dos seus sentidos. É codificada e interpretada pela emoção a
partir de suas memórias emocionais registradas em experiências anteriores.
Neste caso, esta interpretação ativa nele a emoção da raiva, e a informação
contaminada e colorida pela raiva será então racionalizada. Esta, por sua vez,
mostra neste caso que, mal analisada e gerida, transforma aquela
ebulição causada pela emoção em sentimento de injustiça, irritação e de revolta
com um comportamento explosivo. E a criança aprenderá com esta experiência, e quando achar que um árbitro foi injusto, ou o professor, ou futuramente o seu
chefe, terá como forte influência estas memórias guardadas. Quando dizemos,
“ele puxou o pai, pois é explosivo como ele” estamos de fato dizendo que o pai, sem se
dar conta, ensinou o seu filho a ser explosivo.
Assim como ensinamos tantas coisas sem nos darmos conta. Cuidemos das
nossas emoções, pois assim estaremos também cuidando das emoções dos nossos
filhos. Boas emoções! Vamos lá Brasil!
24 de jun. de 2018
215. A COPA DO MUNDO NO MUNDO DAS EMOÇÕES.
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| Photo by Dan Gold on Unsplash |
Os jogos da copa afloram e potencializam em
nós muitas emoções e sentimentos, o que facilita com que tomemos mais
consciência deles para melhor SENTIR, NOMEAR, PENSAR, GERIR e bem AGIR. E o melhor
modo de educar as emoções é conhecendo mais deste mundo, que por séculos foi
tão preterido em prol da razão. Todavia, pesquisas, em especial das
neurociências, revelam o oposto: a emoção precede a razão e interfere
fortemente em nossos processos perceptivos, emocionais, cognitivos e
comportamentais. Quando um jogador erra um pênalti, sabemos que não foi por
falta de treino. Mas, na maioria, a emoção mal gerida contaminou os demais
processos impedindo o gol. Assim como, quando metemos os pés pelas mãos, ou
agimos sem pensar e nos damos mal. Sim, isto é má gestão das emoções, isto é,
quando não as usamos a nosso favor. Importante diferenciar emoção de sentimento
para que aprendamos a agir sobre eles com maior eficiência, assim como ensinar
aos filhos para que desde a primeira infância consigam identificar as suas
emoções e a cuidar delas. As EMOÇÕES são o que nos move, o que dá vida à vida e
são manifestadas por reações fisiológicas, como sudorese, taquicardia, aumento das
pupilas, entre outros. O SENTIMENTO é a racionalização deste movimento no corpo
que a emoção causou. E ambos irão se pautar em experiências anteriores
registradas na memória. Observe que todo estímulo que provém do meio não vem carregado
de emoção, mas somos nós, cada um de nós, que interpretamos e damos um
“colorido” ao que entra a partir das nossas memórias emocionais construídas em
experiências anteriores. Por isso, uma barata pode parecer um dinossauro para
um, enquanto que para outro ela é apenas um inseto. Alerta! As memórias da
infância são muito poderosas e importantes e muitas delas acabam servindo de
base interpretativa às novas situações até quando já adultos. Cuide das do seu
filho. Assim, os estímulos que entram em nossos cérebros passam pelo centro das
emoções, são interpretados a partir de memórias registradas gerando um colorido
e um movimento à informação e preparando o corpo para uma ação baseada nesta
análise. Todavia, antes de agirmos primitivamente, temos a chance de
interpretar todo este movimento de modo racional, lembrando que a informação já
foi contaminada pela emoção. Mais um motivo para ficarmos alertas às memórias
emocionais das crianças. A racionalização da emoção acontece em nossa área
cortical mais nobre: pré-frontal, onde se processam as funções executivas, a
gestão das emoções, a moral, o certo e o errado, o justo e o injusto, o bom e o
mal entre tantas outras funções essenciais à nossa sobrevivência e ao nosso
progresso, além de serem muito requisitadas ao assistirmos aos jogos da copa.
Afinal, haja coração! Ou melhor, haja sistema límbico e pré-frontal! Atente-se,
pois o pré-frontal começa a se desenvolver entre 3 e 4 anos e precisará muito
aprender para isso. Logo, precisará ser ensinado. E, conscientes ou não, a
nossa interferência dirá muito deste desenvolvimento e nosso comportamento
também. Pois, a criança, com seu sistema nervoso ainda imaturo e suas poucas
experiências de aprendizagens, tem dificuldades para lidar com as emoções e com
todas as novidades à sua volta. Então, utiliza-se de um grande recurso para
aprender: a imitação, que acelera (ou retarda) processos. E esta
aprendizagem, cognitiva, psicomotora, emocional, servirá de base a outras
novas aprendizagens como vimos. Por isso, é bom cuidarmos de nossos
comportamentos, pois eles dizem de como usamos a razão em benefício da emoção
(ou não). E nossos filhos nos imitarão. Assim, fique de olho na copa do mundo sem perder o foco também no mundo das emoções. Afinal, sabemos bem: em jogo do Brasil, haja emoção!
Vamos lá, Brasil!
Vamos lá, Brasil!
No próximo post, trarei um
exemplo bem prático para que fique ainda mais claro o poder das emoções e o
quanto as emoções dos pais dirão das emoções dos filhos. Inscreva-se e receba
por email. Até a próxima!
12 de mai. de 2018
214. NO DIA DAS MÃES, CHOREI PELO FILHO.
Há vinte anos, fui a uma
festa descontraída, de dia das mães, na escola de Educação Infantil de minhas
filhas. A escola caprichou muito mais em emoções do que em aparências, tanto é
que não esqueci de cada detalhe. Afinal, a emoção é a cola da memória. A festa
foi no pátio da escola e começou com um coral composto por crianças de 1 a 5
anos. As minhas filhas tinham 3 e 1 na época. As crianças começaram, com
aquelas vozes infantis que pareciam anjos, a cantar Vinícius: “Eu sem você não
tenho porque, porque sem você não sei nem chorar. Sou chama sem luz, jardim sem
luar, luar sem amor amor sem se dar. E eu sem você, sou só desamor, um barco
sem mar, um campo sem flor...” E claro que quase todas as mães se debulharam em
lágrimas. Devo até ter puxado o coro. Mal havíamos recuperado e mais atividades
e mais atividades do tipo que você se pega agradecendo: “Meu Deus! Obrigada por
eu ser mãe!” E, para finalizar veio a entrega dos presentes, que eu achei
incrível além de muito bem contextualizado e útil. Nesta época, morávamos em
Fortaleza/CE. As crianças pintaram cangas de praia, e como era escola
construtivista, elas mesmo pintaram. Não era aquela coisa para pai ver. E é
claro que as tenho até hoje. Eu estava em festa, abraçando minhas filhas,
nos enrolando nas cangas, agradecida por tudo e pelo tanto, quando uma mãe
puxando o seu filho interrompeu este meu momento sublime e perguntou: “Você
pode me fazer um favor?” Nunca a tinha visto, embora a escola fosse pequena,
mas disse que sim, se estivesse ao meu alcance. E ela prosseguiu, enquanto puxava
uma de minhas cangas: “É que vi esta sua canga e ela está perfeita para o meu
biquíni. Você troca comigo?” Atordoada com o pedido, olhei imediatamente para o
filho dela, que cabisbaixo esticava o seu braço para me entregar a canga que
ele havia pintado para a sua mãe. Abaxei-me e fiquei da sua altura. Segurei a
sua canga, envolvendo o menino nos meus braços e fiz com que nós dois a
esticássemos juntos. E olhamos e conversamos como ela estava linda! Beijei o
menino, levantei, respirei fundo e disse a mãe: “Posso te pedir um favor?” Ela
animada, balançou a cabeça afirmativamente. Segurei-lhe as mãos, olhei bem fundo
em seus olhos e disse com calma: “Compre um biquíni que combina com a sua
canga? Por favor!” E busquei dizer com os olhos tudo o que eu queria dizer, mas
não queria deixar ainda mais claro ao menino. E continuei: “Eu tenho certeza
que você ficará linda nesta canga e o seu filho muito feliz ao te ver usando.”
E chorei por aquele menino. E mais agradeci à vida e ao privilégio de viver,
feliz e em intensidade, todos os dias, a tão maravilhosa maternidade. E mesmo
as filhas já terem batido asas, eu sei que a maternidade permanece e
permanecerá para sempre.
Felizes dias da mãe! Sim,
dias, assim como são.
Desejo que seja feliz e
intensa na maternidade, assim como na vida. Desejo que seja feliz cada dia,
sendo ele bom ou não. Pois se teve dia, teve vida e isto já é mais do que bom.
Parabéns, Mãe!
Parabéns Mães!
16 de mar. de 2018
213. COMO TRANSFORMAR UMA HISTÓRIA INFANTIL EM APRENDIZAGENS E DESENVOLVIMENTOS À CRIANÇA.
Há várias maneiras de transformar
um livro numa experiência de aprendizagens e desenvolvimentos. Trarei sugestões
e cuidados fundamentados no desenvolvimento da criança, que ajudam a criança a
pensar, a se autoconhecer, a identificar suas emoções, sentimentos, conhecimentos
e comportamentos, bem como a gerí-los. Claro, que a experiência de leitura
dependerá do mediador/leitor e do desenvolvimento da criança ou do jovem. Especificarei
quando necessário.
1. Peça ao seu filho para
escolher um livro ou escolha você um que tenha uma mensagem que considere
importante discutir com ele. Ou que a personagem viva um problema semelhante ao
que ele vive, pois perceber no outro é sempre mais fácil. E quando o filho
percebe no outro fica mais fácil fazê-lo perceber em si. E percebendo em si,
fica mais fácil mudar e/ou gerir seja comportamento, pensamento ou emoção.
2. Ao ler para a criança de
qualquer idade é bom que estejam em um lugar confortável, iluminado, tranquilo,
sem muitos distratores. Se ela for maior, deixe-a ler.
3. Leia devagar página por
página, mostrando em cada uma a gravura. Não comente nada, apenas leia para que
você possa perceber e entender como o seu filho percebe e entende sem a
interferência da sua interpretação.
4. Se ele fizer algum
comentário no decorrer da leitura, apoie-o e o ajude a organizar o seu
pensamento e a fala, sem pensar ou dizer por ele. Se ele fizer alguma pergunta,
responda com a mesma pergunta que ele fez e o deixe responder. Segure-se mesmo
que saiba a resposta. Pois, a pergunta e a resposta da criança nos dão dicas de
como está organizada a sua cabeça e como e onde podemos contribuir.
5. Ao final, conversem sobre a
história e não economizem perguntas. O que entendeu? O que aprendeu? Onde a
percebe na vida? Em que a história se parece com a sua vida? Como usá-la na
vida? Uma pergunta por vez. Formule e deixe a criança também elaborar seus
questionamentos.
6. Cada um entenderá a
história a partir do que já construiu em si e com a maturidade que lhe cabe,
inclusive do sistema nervoso. Importante! Antes de você dar a sua
interpretação, escute muito a criança ou o adolescente. Provoque-os para que expressem,
sem medo, o que apreenderam. Ótima maneira de conhecer o filho, o que e como pensa,
o que e como sente, e como age.
7. A criança menor
compreenderá mais pelo concreto, ao pé da letra, de forma simples, mas muitas
vezes com verdades complexas aos olhos dos adultos que conseguem ver com olhos
de criança. Por isso, atenção ao que ela diz, pois sabe dizer saberes
incríveis! Porém, ainda apresenta o pensamento confuso e lento, o que é normal.
Então, quando ela for explicar ou dizer algo, calma. Não se apresse para
completar o pensamento dela como quem adianta ou adivinha o que ela vai falar.
Não! Deixe-a ter o esforço de pensar, de pensar sobre o que pensa, de sentir e
falar. Segure-se, pois isso ajudará muito no desenvolvimento do
autoconhecimento, da linguagem e de suas funções executivas, fundamentais na
escola, e essenciais para a vida. E é de pequenininho que a gente começa e só
aprendemos a fazer fazendo.
8. Os pré-adolescentes e os
adolescentes conseguirão abstrair mais a mensagem e vê-la de modo metafórico,
reflexivo e mais profundo. Provoque estes diferentes olhares e as formas de
pensar, pois eles estão em ótimo momento para isso. E o desenvolvimento não
acontece por um acaso. Precisa ser bem estimulado e trabalhado. Aproveite a
história, façam-se perguntas mais profundas sobre ela, busquem analogias com a
vida, enfim, FILHOsofem e explorem os deliciosos diálogos entre pais e filhos.
9. Importante cuidar da
comunicação. Preste atenção à maneira como você reage ao que o seu filho diz e
pergunte-se sempre: “Esta minha reação favorece que ele me conte o que sente, o
que pensa e o que faz?” Simples assim.
10. Além da leitura, os pais
podem criar outras atividades como desenhar o que achou mais importante, mudar
o final da história, criar uma história diferente com a mesma mensagem, fazer
novas ilustrações, fazer a personagem com argila etc. Importante é sentir o
momento, estimular bom desenvolvimento e aproveitar-se do nosso poder criativo,
bem como o da criança.
Estas dicas, testadas e
aprovadas com filhas e alunos, proporcionam inúmeros benefícios ao
desenvolvimento da criança, do adolescente e da relação entre pais e filhos.
Além disso, a leitura do livro com diálogo, cuidados e uma boa dose de atenção,
ajuda os pais a conhecerem melhor seus filhos, suas dificuldades, o que sentem,
o que pensam e como agem. Tendo a história como apoio e deixando a criança se
colocar, estamos ajudando-a a por para fora o que às vezes ela nem percebe que
tem dentro. E identificar como está
sendo é a melhor forma dela se conhecer, refletir sobre si e aprimorar-se. Isto
também vale a nós e para todos de qualquer idade. Só mudamos aquilo que temos
consciência. Por isso, use e abuse das histórias para as crianças se
autoconhecerem, pois isso será de grande valia para o hoje e para o amanhã.
Boas leituras. Bons diálogos.
Boas inspirações. Felizes encontros.
Até a próxima!
15 de mar. de 2018
212. POR QUE LER "A PARTE QUE FALTA" E “A PARTE QUE FALTA ENCONTRA O GRANDE O.”?
“A parte que falta” e “A Parte que falta encontra
o grande O”, ambos de Shel Silverstein, são livros infanto-juvenis (e para toda
a idade) que tocam, pois tratam da natureza humana, da nossa incompletude e da
nossa busca por plenitude, chamando-nos ao autoconhecimento. É de se supor que
pais que tenham esta preocupação consigo favorecem maiores oportunidades aos
filhos de se autoconhecerem também, o que é fundamental ao seu pleno
desenvolvimento como apregoam tantas pesquisas. Além disso, são livros que
chamam ao diálogo e várias questões podem ser trabalhadas de acordo com a idade
do filho. Ajuda ainda a perceber a compreensão da criança para a mensagem, identificar
as suas “faltas”, ajudá-la a lidar com elas, perceber como estão suas
habilidades sócio-emocionais entre outras, além de muitas vezes nos surpreender
com suas deliciosas interpretações, que mostram bem que o menos é mais. Ai as
crianças! Como ensinam! Mas voltemos aos pais.
“A parte que falta” foi primeiramente lançado em
1976, mas inquietou a muitos, graças à Companhia das Letrinhas que o relançou
este ano e ao vídeo cheio de vida da youtuber Jout Jout. Ouvi jovens, adultos,
crianças comentando o livro aparentemente simples no texto e nos desenhos. Como
se o autor não quisesse nos distrair com detalhes, mas sim nos fazer rolar
junto com a personagem, que afinal rola para dentro de si e nos leva junto,
fazendo brotar indagações de autoconhecimento na revelação enigmática da
mensagem. Nele, a personagem é como uma pizza faltando um pedaço que rola em
busca desta parte que falta. Interage com o meio, aprecia o entorno e até elege
alegrias, enquanto tenta ajustar-se às partes que parecem ser a parte que falta.
Mas elas sobram, faltam, sufocam, quebram, limitam, não encaixam. E, quando
parece ter encontrado a parte perfeita, a “pizza” plena passa a sentir falta da
vida, de seu ser e da sua falta. Então, coloca com cuidado a parte no chão e
segue a rolar em busca da parte que lhe falta. Não, não tem um final feliz. E,
talvez por isso, fiquem a ecoar em nós as tantas perguntas: Falta em mim? O que falta? Por que
falta? Como falta? Deve faltar? Fico com a sensação de que a falta nos move e
nos faz avançar. Mas, até que ponto nos falta o que cremos faltar?
Perguntas que nos levam, também, ao
autoconhecimento na relação com os filhos. Escuto mães dizendo: “Meu filho é
minha vida!” “Meu filho deu sentido à minha vida.” “Meu filho me completa!” É
bonito, mas será saudável e justo fazer do filho a parte que nos falta e
moldá-lo para tal? Será que o meu filho quer ser a parte que me falta e me completa?
Ou será melhor que ele seja inteiro? E eu?
E é esta a reflexão, ser parte ou inteiro, que me
tocou em “A parte que falta encontra o grande O.”, lançado em 1984. Afinal, a
ideia do outro ou de algo a nos completar é mais antiga que Cristo e está
incorporada em nós pela cultura. Aprendemos a buscar a nossa metade, a achar a
tampa da nossa panela, a fazer do filho uma parte de nós ou o todo de nós. E o
livro trata bem esta questão: a ideia da união de inteiros e não de metades.
Acho que vale pensar. Neste, é a parte que sente a falta e na sua busca
encontra a “pizza”, agora um círculo completo. A parte crê que encontrou o seu
complemento e quer rolar com o círculo. Mas este a nega pois já se encontra
completo. Sugere, então, num diálogo cru(el) e de impacto, que o pedaço role sozinho.
E assim a parte segue, aos trancos e barrancos, arredondando suas arestas com
esforço e determinação, até que rola por si, tornando-se livre para rolar junto sem precisar rolar com. E
assim seguem ambos inteiros rolando juntos num final bem mais feliz.
Resumindo em uma palavra, eu diria que um livro é
PIECE e o outro PEACE. O primeiro trata de PIECE (pedaço), e nos faz refletir o
que falta, seja em relação a nós, aos filhos, a outros, a objetos, a desejos
diversos. Já o segundo, remete-nos a PEACE (paz), estado que nos permite sentir
a completude, ainda que nos falte, mas que nos faz cientes de que cabe a nós
completarmo-nos. Creio que só assim poderemos em todos os nossos papéis rolar
junto sem precisar rolar com, o que propicia relações mais saudáveis e de
desenvolvimentos. E creio que só assim poderemos ajudar nossos filhos em suas
faltas e completudes: rolando e ensinando a rolar junto, sem rolar com.
Dito tudo isso, como explorar estes livros com a
criança ou adolescente? Leia, escute, indaque, leve seu filho a pensar sobre o
livro, sobre si e sobre o que pensa, sente e age: O que é a parte? O que falta? O que está
por trás da falta? Traga exemplos do seu cotidiano como a falta daquele
celular, tênis ou jogo que todo mundo tem menos ele. Ou faça uma analogia com
os amores, amigos, manias. Como eles completam? Por que completam? Deveriam? E
deixem fluir perguntas e respostas que lhe tragam informações importantes para
ajudar o seu filho a constituir-se por inteiro.
No próximo post, trarei sugestões e cuidados fundamentados
no desenvolvimento da criança e adolescente para proporcionar ao seu filho uma
rica experiência de leitura e autoconhecimento com a ajuda dos livros
infanto-juventis.
Boas leituras! Continuemos a rolar.
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