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5 de mai. de 2020

224. HOMESCHOOLING E UM PEDIDO ÀS ESCOLAS


Trabalho com formação de professores, com educação parental e com crianças. Ou seja, estou percebendo o homeschooling pelos três ângulos. E não está fácil a ninguém, pois talvez estejamos complicando. Hoje meu pedido vai para as escolas. Eu sei que as equipes pedagógicas estão se desdobrando para produzirem conteúdos de um jeito novo para as crianças. Sei que estão dando o seu melhor. Mas sabem o que eu mais queria agora? Que invertessem um pouco. Que neste momento, ao invés de ensinarem virtualmente o período paleolítico, o vértice dos polígonos, a tabuada, os substantivos abstratos e adjetivos, ou qualquer outro conteúdo, que parassem um pouco e ouvissem as crianças. O que elas têm aprendido neste período de isolamento? Como é ter os pais em casa? O que elas têm sentido na nova rotina? O que têm feito? Como têm gastado energia? Que emoções têm aflorado? Como elas têm lidado com isso? Do que elas mais sentem falta? Que estranhamentos percebem? O que acham disso tudo? Que recados têm aos adultos e às crianças? Este seria um hangout precioso, não acham? Que troca mais rica! E quantos recados conseguiríamos captar! Afinal, todos estes conteúdos escolares podem esperar, enquanto repensamos o modo como são ensinados. Mas, neste momento, há outras urgências: a saúde mental e emocional das crianças. E não há aula virtual expositiva que possa dar conta disso. O cérebro é configurado na experiência. Vamos aproveitar?

25 de jan. de 2018

209. TDAH: ENTENDER PARA MELHOR AGIR.

“Compreender a mente humana e o comportamento produzido, inclui considerar seu contexto social e cultural.” (Antonio Damásio) Ou seja, qualquer que seja o transtorno, não se pode analisá-lo de modo isolado, mas por uma multidimensionalidade que inclui a biologia e o meio. O TDAH, Transtorno de Déficit de Atenção e Hipertividade, é um transtorno de neurodesenvolvimento, essencialmente comportamental. Há três fatores neurobiológicos, especialmente ligados ao (1) processo de mielinização tardio e amadurecimento cerebral mais lento, (2) disfunção neuroquímica e (3) ineficiente integração entre os sistemas de antenção, que comprometem o bom funcionamento cerebral, deixando a criança com TDAH lenta para amadurecer e rápida para se distrair.
Isto irá comprometer e muito o desenvolvimento do Pré-frontal, área de grande importância para as nossas funções executivas, como a organização e planejamento da ação; motivação; memória; controle emocional; controle de movimentos, resolução de problemas entre outras. Ou seja é uma área extremamente importante para o dia a dia, seja na escola, no trabalho, na vida. Também o portador, acaba tendo problemas com o sistema de recompensa cerebral e por isso mais do que ninguém precisa de feedbacks positivos para se motivar a seguir adiante. Todavia, por ser “excessivo” no que faz, acaba levando muita bronca, é taxado de preguiçoso, desleixado, o que pode agravar ainda mais o quadro. Tais disfunções acarretam três sintomas cardinais à criança com o TDAH: (1) Desatenção (divagação em tarefas; falta de persistência; dificuldade de manter o foco; desorganização), (2) Hiperatividade (atividade motora excessiva, inquietude extrema) e (3) Impulsividade (ações precipitadas, desejo de recompensas imediatas, incapacidade de postergar gratificação). Todavia, um diagnóstico sério e preciso “depende de uma avaliação que integre os fatores biológicos aos ambientais, relacionados à dinâmica familiar e emocional.” (Dr Mauro Muszkat). Mas atenção! No mundo todo, há uma média de 5% de crianças com TDAH e 2,5% de adultos. Contudo, aqui no Brasil, o número é bem mais elevado, o que nos faz refletir se não há uma hiperdiagnosticação. Temo que muitas famílias troquem educação por Ritalina, como faz uma conhecida minha com o filho. “Ele fica ótimo, tão bonzinho!”, diz ela. E como sei também de muitos estudantes que a tem usado para potencializar as suas funções executivas. É bom cuidar, pois há contra-indicações. Assim, antes de medicar, tenha certeza do diagnóstico, procure uma equipe multidisciplinar, para não colocar em risco o desenvolvimento do seu filho. Na próxima coluna, tratarei das principais dificuldades de quem possui o TDAH e como podemos contribuir para ajudá-lo a vencê-las.

Até lá!


Qualquer dúvida, email me

prof.ligiapacheco@gmail.com

11 de jan. de 2018

208. O MUNDO DA CRIANÇA AUTISTA E COMO AJUDÁ-LA.


Fotos cedidas pelo prof Casio Lucena
Todo ser possui potenciais a desenvolver e merece desenvolver-se integralmente. Já escrevi muito sobre isso nos posts anteriores. Mas como contribuir com as crianças com transtornos de neurodesenvolvimento cujo funcionamento mental tem características tão peculiares? Melhor caminho: conhecendo-as. Comecemos pelas crianças portadoras do TEA, Transtorno do Espectro Autista.
Há vários níveis deste transtorno, do leve ao severo, mas em geral, o portador do TEA tem o cérebro hiperexcitado. Ou seja, diferente da maioria, que a cada nova atividade desliga a anterior, o autista liga uma nova atividade sem desligar a outra. Assim, ao longo do dia ele vai fazendo centenas de atividades ao mesmo tempo. Para dar conta de tantos estímulos, ele se organiza com padrões restritos e repetitivos não só comportamentais, mas também de interesses e/ou atitudes marcados por acentuadas rotinas e rituais. Fácil entender o porquê possuem grande dificuldade em lidar com as mudanças ou excesso de estímulos, pois se desorganizam e entram em crise. Além disso, seu diferente desenvolvimento neurológico gera-lhe prejuízos na comunicação social, na interação social e reciprocidade sócio-emocional, o que é fácil supor que acarreta a ele grandes dificuldades para se adaptar a este mundo, que é pensado para outro tipo de funcionamento cerebral. Como podemos então favorecer-lhe desenvolvimentos sem que ele se desorganize?
Há várias atividades para ajudar a criança a aprender, a desenvolver suas tantas possibilidades na escola e na vida. Cito uma, a prática da capoeira, que favorece o desenvolvimento integral do portador de TEA. Esta prática traz movimentos corporais ritmados, acompanhados de uma música com repetições bem marcadas e tendo como principal instrumento, o berimbau, instrumento de uma corda só, que proporciona uma música interessante, rústica e sem grandes estímulos musicais. A prática ainda segue ritual e rotina bem definidos, com integração social leve e em roda, tendo no centro apenas dois integrantes, cujos movimentos não são tão desestruturantes, como pode ser em um jogo de equipes, como o futebol, com mais imprevistos que podem desorganizar a criança. Como vemos, a capoeira vai muito ao encontro das características das crianças com TEA e ao seu funcionamento e por isso, pode ser uma boa opção ao seu desenvolvimento integral.
Fotos cedidas pelo prof Casio Lucena
Conheci o professor Cássio Lucena, que trabalha, a prática da capoeira com crianças com o TEA e outros transtornos em Recife/PE há alguns anos, e que juntamente com o professor Daniel Pina, estão começando um projeto na academia Santè em Boa Viagem para a inclusão destas crianças no universo da atividade física. Vi um pouco mais de perto o seu trabalho e marcamos um bate-papo. A fala emocionada e emocionante do professor, ilustrada por vídeos das atividades e dos progressos dos alunos, deixava claro os seus benefícios, que logo o professor elencou. 
1. A cadência rítmica e a expressão corporal da capoeira permite o envolvimento do corpo do aluno como um todo, além de favorecer a integração com outros indivíduos, uma de suas grandes dificuldades. 2. Trabalha a autonomia da criança, a sua psicomotricidade não só pela coordenação dos movimentos corporais, como também ao tocarem os instrumentos como o berimbau, atabaque e o pandeiro, desenvolvendo ainda a musicalidade. 3. Também favorece a comunicação e a linguagem, outra grande dificuldade apresentada pelo transtorno, ao cantarem as músicas e  falarem sobre elas. 4. E conhecem uma nova prática cultural enquanto se desenvolvem e se integram.
Ou seja, o transtorno traz sim prejuízos, mas toda criança pode e tem o direito a desenvolver-se. E toda criança, independente de sua constituição, é um ser de possibilidades. Façamos o nosso melhor por elas.
Bravo, professores Cassio e Daniel e tantos outros que colaboram! Muito lindo, útil e iluminado este trabalho. Unamos forças por mais conhecimentos destes mundos tão únicos para agirmos a favor de suas tantas possibilidades.

No próximo post falaremos do TDAH: Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Inscreva-se para receber por email. Acompanhe.


Qualquer dúvida, email me

prof.ligiapacheco@gmail.com

17 de set. de 2017

202. A VOZ DA MÃE DE CRIANÇA COM NECESSIDADES ESPECIAIS.

Ministro disciplinas em pós-graduação de Neuropsicopedagogia. Os alunos são na maioria psicólogos e professores que almejam ampliar seus conhecimentos por uma melhor mediação com estas crianças em prol de seus desenvolvimentos. E sempre há mães de crianças com necessidades especiais com o mesmo propósito. E ninguém melhor do que elas para nos dizer o que sentem, o que fazem, quais as dificuldades e as alegrias provenientes desta relação. Assim, convidei Willy a nos dar seu depoimento e ela topou.

Com vocês, Willy, mãe de Mary (13) e Anna Carolina (6).



Aos filhos especiais

Escuto muitas pessoas falarem sobre ser mãe de uma criança especial:
- Deus só dá filhos especiais para pessoas especiais...
- Só tem o fardo quem consegue carregá-lo...
Entre tantos outros dizeres pré-estabelecidos.
Vou de encontro a tudo isso! Vou contar minha historinha!
Sou Wylly mãe de Mary (especial), que nasceu aos 8 meses, cesariana e só a mamãe Wylly que não ficou bem, mas a filhota estava muito animada para descobrir o mundo. Esse pequeno ser, ao nascer, me ensinou a amar minha mãe. Eu não fazia ideia do que era o amor de mãe, até que comecei a amar como uma mãe. Agora, toda ação de minha mãezinha é compreendida com sublimidade e amor. Esse pequena Mary, tão frágil e indefesa, veio ao mundo para me ensinar, me fortalecer e corrigir algumas falhas sobre o amor que eu desconhecia (respeito, paciência, renúncia e perdão). Eu aprendi a sentir o amor de mãe. E que grande oportunidade de sentir!
Ela é muito especial! Obrigada, minha filha especial!
Depois de 7 anos chegou Anna Carolina, Carol ou a TODA PODEROSA, como queiram chamar (especial). Carol nasceu prematura, seis meses, problemas no coração, problemas no pulmão, falta de oxigenação, lesão cerebral e um montão de “pias” durante sua vida (fisioterapia, hidroterapia...).
Carol me ensinou a amar o próximo! Eu jamais iria pensar em adaptador de banheiro se ela não tivesse necessidade de segurar- se, eu nunca iria ficar indignada com diagnósticos médicos se não fosse me oportunizado conviver com a AACD.
Carol abre meus olhos, me fazendo enxergar que ser diferente é tão mais especial que estar na normalidade. Faz você sair de seu mundo de mesmice e entrar no universo do outro, sentir o outro e suas limitações e lutar pelo outro por amor, sem querer nada em troca. Não sou eu que sou especial, mas elas!
Minhas meninas estão me lapidando a cada dia, elas estão me tornando mais humana, mais gente, mais consciente de mim, do mundo e do outro.
Filhas especiais, vocês me deram oportunidade de ver além, a não julgar, e, principalmente, amar sem limites. A crer que é possível ser feliz a todo momento!
Sobre ter necessidades especiais? Sabe o que eu acho?
Todos somos especiais!!

Willy