12 de mar. de 2015

142. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Ahmedabad.


O último projeto que irei apresentar foi conhecido e vivenciado em Ahmedabad, uma cidade também bem interessante. Fomos a Riverside, escola lindamente construtivista, cuja fundadora, Kiran Bir Sethi, é também a idealizadora do fantástico projeto “Design for Change”. (ps: Tem um TED bem interessante com ela.) Conhecemos a escola pelos alunos que, ainda que pequenos, deram um show de como a escola funcionava. Falaram dos projetos, dos ideais da escola, de como aprendiam e o que aprendiam. Emocionante de se ver, bem como ver alguns projetos acontecerem. 
Interessante como eles vivenciam a aprendizagem, sentindo na pele, o que para mim é o melhor modo de aprender. Por exemplo: Um dos temas era o trabalho infantil, muito comum na Índia. As crianças da escola viveram um dia como se fossem essas crianças. Ficaram o dia todo quebrando pedras embaixo do sol e de um calor insurpotável. Um outro projeto achei uma graça e servia aos alunos que tinham desavenças entre si. Explicitavam a raiva, marcando em um mural quem não gostava de quem. E um deles presenteava o outro com uma planta. E ambos deveriam cuidar dela, enquanto se cuidavam. Deu-me certo conflito essa exposição, mas ao mesmo tempo achei lindo.
Passaria dias contando os projetos que vi ali. Mas vale focar no  “Design for Change”, que inclusive a própria Kiran reforçou aquilo que os pequenos alunos já haviam nos dito. É um projeto que trata o aluno como protagonista histórico e ser capaz de propiciar transformações. O método é simples e segue quatro passos: Sentir (feel), Imaginar (imagine), Fazer (do) e Compartilhar (share). Ou seja, o aluno detecta algum problema que o incomoda, o que já o ensina a observar a realidade como ser ativo. Então ele imagina como pode resolver o problema, e em geral convoca outros para ajudá-lo. Próximo passo é colocar em prática o planejamento do passo anterior, isto é, fazer. E então, compartilhar a experiência, que é um modo de contaminar benignamente a outros.
Esse projeto é relativamente novo e já alcançou boa parte do mundo. Assistimos vídeos de diversos países, com diferentes problemas e suas resoluções. Hong Kong, Butão, Chile, Colômbia, França, Canadá, EUA, Camarões, México, Espanha, Brasil, Filipinas, Portugal, Singapura entre tantos outros. E a maioria conseguiu arrancar-me lágrimas. As crianças levantavam e resolviam problemas de bullying, cantina, recreio, material escolar, acesso à escola, limpeza dos banheiros, buracos nas estradas, inclusão de alunos e diversos outros. Não importava o tamanho do problema nem a sua complexidade, mas sim ensinar às crianças a sentirem os problemas, pensarem em soluções e agirem. Realmente arrepiante de se ver. Tudo muito inspirado no Quociente de Gandhi, já explicado em post anterior. Mas que se resume numa frase do próprio: Seja você a mudança que quer no mundo.
Que ideia simples, mas altamente transformadora. E, além de compartilharem com a comunidade o problema sentido e como foi resolvido, há ainda um evento, de que também participamos, onde há a troca com todas as escolas envolvidas da Índia. Como há ainda um evento bem maior, onde compartilham com todas as escolas do mundo que abraçam essa causa. Kiran, a idealizadora, é de uma simplicidade que nos faz pensar e é mulher iluminada. Não há como negar.
Por mais que existam também aqui no Brasil projetos assim, eu nunca vi algo tão grandioso, organizado e ao mesmo tempo simples e complexo.  Sei que, de todas as viagens que já fiz, talvez a Índia tenha sido a que mais impactou a minha vida. Proporcionou-me rever muitos conceitos, valores e percebi mudanças que vieram delicadamente, assim como os indianos são.

Obrigada Deus pela vida, por me acompanhar nessas aventuras tão construtivas, por me permitir viver tais maravilhas. Obrigada a cada indivíduo que passou pela minha vida, ajudando-me, por bem ou por mal, a ser pessoa melhor. Um ser ainda em construção, e que assim seja até o último suspiro. Até a próxima viagem!

Acesse o link e veja outras postagens da série Educação pelo mundo.

SÉRIE EDUCAÇÃO PELO MUNDO

9 de mar. de 2015

141. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Pune.


O interessante dos indianos é que eles nos colocam para viver a cultura, o que é bem mais fidedigno para compreendê-la. Em Pune, ficamos hospedados na Universidade de Flame, que fica em um lindo vale. Todos os alunos moram ali. Foi uma experiência muito mais rica em termos de conhecimento da cultura, inclusive da rural. 
Ficar entre os alunos e viver o cotidiano deles numa cultura tão diferente da nossa foi realmente interessante. Participei de meditações, de vivências com músicas e danças, de dinâmicas grupais e individuais, vivendo num campus em funcionamento. Bárbaro. Em um dos dias, tivemos uma troca de experiências entre um grupo de educadores brasileiros e o staff da Faculdade. Falamos das semelhanças e diferenças entre nós e senti muita vergonha quando um dos diretores, Rajneesh, perguntou-nos qual era o valor que nos unia enquanto nação. Nos enrolamos para responder, gaguejamos, falamos bobagens, o que significava para mim, que de fato não tínhamos um valor. Para eles, o respeito pela nação era o que os unia. Lembrei-me da Copa do Mundo de 2014, quando os brasileiros começaram a abandonar a arquibancada ainda no início daquele inesquecível jogo contra a Alemanha. Respeito ao país? Não temos. Temos valor? Hummm...

Além de outras ricas trocas, a própria reitora, Indira Parikh nos conduziu ao que ela chamou de Magic Lab, numa experiência inesquecível e realmente mágica de auto e heteroconhecimento. Além de nos proporcionar em sua própria casa, um jantar com educadores de didáticas diversas e nos levar ao seu quarto para mostrar os seus saris. Sentada em sua cama, pensava nessa rara, rica e diferente experiência. Que maravilha!

6 de mar. de 2015

140. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Srishti School (Bangalore).


Srishti School of Art, Design and Technology fica em Bangalore, principal hub de alta tecnologia e telecomunicações da Índia. Também conhecida como o coração do Vale do Silício Asiático. Cidade bem desenvolvida, mas como toda a Índia, também repleta de pobreza. Em Sristhi, há um projeto bem interessante e que pude vive-lo tal qual os fundamentos que ele proclama. Primeiro, a experiência. Explorar sem muito pensar. Segundo, pensar a respeito e de diferentes formas. Terceiro, voltar-se à experiência modificando-a. E foi exatamente assim que a Faculdade nos recebeu. Com um grupo de alunos do primeiro ano, ano que é destinado, intencionalmente para bagunçar os conceitos. Participamos dos conhecimentos de Kabir, o místico e popular poeta do século XV, que nos foi apresentado por músicas, histórias, documentários, vivências corporais, vivências sociais e depoimentos de diversos indianos que diziam da origem e da morada do conhecimento, enquanto expressavam seus modos de ver a vida, de dar sentidos a ela e encontrar sua missão na mesma. Pensamentos que pareciam alcançar uma ideia comum: o ser interior. Leia alguns retirados dos depoimentos.
“O conhecimento mora na experiência e então suas ações determinam quem você é!”; “Mas quem determina o que é bom ou ruim?”; “Minha ação é a minha religião.”; “Se você aprendeu só em livros, o seu conhecimento está limitado entre A a Z. É preciso ir além disso.”; “Muito do conhecimento já está em nós. É preciso saber olhar.”; “Se você enxerga a guerra fora é porque você tem a guerra dentro. Se você vê o amor fora, é porque você vê o amor dentro.”; “Muito do conhecimento, que vai além do A a Z, só pode ser encontrado no silêncio.”; “A verdade está nos seus olhos e há coisas que não se nomeiam.”; “Eu achei Deus na pupila dos meus olhos!” E assim seguiu, até o momento que conversamos com os alunos fazendo trocas de conflitos gerados pelo o que tínhamos já construído em nós e pelo o que foi ali apresentado. Muito rico o modo com os indianos vêem essas questões. Colocou-me para pensar. Objetivo atingido: provocou-me a desestabilização dos conhecimentos já construídos. Maravilha! 
Um rápido lanche e então, uma exposição liderada pela coordenadora Arzu Mistry sobre como a Faculdade se desenvolve, os seus projetos interdisciplinares e reais e como ela age de forma transformadora na comunidade. 
Almoçamos, sintetizamos o que vimos mediante os nossos corpos numa vivência interessante e fomos à prática, ver alguns projetos já vivenciados e outros ainda em construção.
Um deles me encantou. Os alunos de 4° e 5° anos visitaram comunidades carentes em busca de entender melhor a cultura popular. Foram em busca de metáforas, de conhecimentos, de histórias e relatos para então voltarem à faculdade e transformar o que detectaram em uma história infantil que voltaria depois à comunidade. Um encanto de projeto e de uma qualidade fantástica. Fez arrepiar. 
No dia seguinte, fomos a uma das sete comunidades que a Srishti apoia, oferecendo ajuda múltipla para trazer de volta as crianças e jovens que haviam abandonado a escola. Assim, dentro da comunidade e com a grande colaboração deles propiciam ampliar os horizontes de todos. Outro projeto de arrepiar. Estivemos com alguns alunos que deram belíssimos depoimentos de superação. Mostraram o funcionamento genial da escola e as possibilidades que se abrem a eles. Alguns já em faculdades, outros em trabalhos que antes nem podiam imaginar, falavam e apresentavam o seus crescimentos.
E a noite, jantamos com o staff da Faculdade, cada qual expondo o seu projeto principal dentro daquele vivo sistema educacional transformador de mundos e gentes. Aplausos, aplausos, aplausos. Propostas que fazem sentir e sentido. Bravo!


25 de fev. de 2015

139. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a metáfora do conhecimento.

Entrada da Biblioteca. Torre vista de fora. Vista da torre.

No Centre for Learning, em Bangalore, vi na biblioteca a metáfora da aprendizagem e da construção do conhecimento. Entrava-se pela porta principal, e ali via-se os livros em estantes em que todos pudessem ter acesso. E uma professora que explorava os livros com um grupo de crianças pequenas. (Como se naquele estágio servisse à apresentação do conhecimento e de suas possibilidades.) No meio do grande salão, via-se uma escada em caracol que levaria a um outro patamar, iluminado, sem tantos estímulos e voltados ao silêncio. (A apropriação do conhecimento requer luz, calma, degrau por degrau num espiral crescente enquanto apura-se em silêncio e individualmente o que se está aprendendo.) Desta parada, encontra-se outra escada. Agora  bem inclinada e reta que dá em um platô menor, porém também iluminado, e onde se encontra um baú. (Uma boa simbologia para "pousar" o conhecimento já apurado e apreendido.) E do baú, uma nova escada. Agora mais íngreme e difícil, terminando em uma pesada tampa que indicava levar para novo patamar. (Como se o conhecimento, sempre inacabado, precisasse cada vez mais de desafios para ampliar-se e se tornar apropriado). A tampa aberta levava para a torre de onde se tinha uma visão surpreendente. Daquelas de tirar o fôlego. (Assim como a aprendizagem que amplia a nossa percepção para o mundo, possibilitando novas visões e ações.) E no alto da torre, um sino. Como se fosse preciso avisar a todos: Consegui!

22 de fev. de 2015

138. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a educação por projetos: Bangalore.

Dra Yasmin Jayathirtha, fundadora do Centre for Learning.

Em Bangalore, conheci dois projetos especiais. Um deles lembrou-me a deliciosa Escola Ágora em Cotia-SP onde aprendi muito enquanto ensinava. O outro, encantou-me o modo como nos foi apresentado, bem como a integração da instituição em sua complexidade. Um projeto vivido por vários ângulos. (Falarei dele no post de n.140.)
Centre for Learning fica há 40 Km de Bangalore, e assim como a Ágora, fica “em meio ao mato”, lugar privilegiado para muitos ensinos e aprendizagens, com espaços inimagináveis a serem explorados. Foi criado em 1990 por um grupo de educadores que queriam explorar a natureza da aprendizagem, a sua relação com os desafios atuais e o desenvolvimento do eu interior. Assim, baseados em Krishnamurti, fundamentaram a escola de forma não hierárquica, holística, interdisciplinar, introspectiva, provocando mais perguntas do que oferecendo  respostas. Não trabalham com recompensa e nem punição. E buscam que o ambiente educativo  traga conforto e segurança para que os alunos possam ser vulneráveis, enquanto buscam a própria verdade.

Tive o privilégio de participar de uma das aulas, que durou cerca de duas horas. Voltei no tempo e me vi com meus alunos, há tantas e tantas milhas dali. Eram dois professores, cerca de doze alunos de 10 a 11 anos, Ana Lucia Guimarães (querida amiga e educadora) e eu. Todos sentados no chão, com os pés descalços e no mesmo círculo. A aula deu início com os professores calmamente perguntando o que os alunos haviam aprendido na aula anterior. (Bravo!) E alunos respondiam com a mesma calma, sem nenhum tumulto. (Bem diferente da nossa realidade!) Esse início já me deixou claro que a aula seria produtiva e construtiva. Logo o professor passou um filme sobre o que estudavam: dinastia chinesa. Provocava reflexões, novas perguntas que não eram por ele respondidas, mas que devolvia aos alunos proporcionando-lhes inquietantes e novas questões, além de muito crescimento. Os alunos mostravam muita atenção, participação, curiosidade e respeito aos outros enquanto construíam seus conhecimentos. E cada um deles anotava, em esquemas, o que achavam pertinente. O professor não dizia: “Isso é para anotar.” “Posso apagar?” Não! Os alunos eram educados para serem autores do conhecimento, da própria vida, com autonomia e responsabilidade. Cada caderno era diferente do outro. (Aleluia!) Após essa rica troca, mudamos para a sala ao lado, que era muito parecida com a que estávamos. Ou seja, não tinha quase nada. Mas esta tinha um quadro que a diferenciava. E dos dois professores, brotavam ainda mais debates, reforçando com as crianças os novos conhecimentos (A neurociência agradece!), enquanto propunham a atividade a ser feita em casa. Os alunos deveriam se imaginar pertencentes a dinastia chinesa e escreverem em forma de uma peça teatral, ou uma carta, ou dialogando com alguém da mesma época. Enfim, deveriam ser bem criativos para apresentar o que sabiam. Isso me lembrou eu mesma. Adoro proporcionar tarefas assim, pois sei que o cérebro do aluno adora. Nada melhor do que transformar dever de casa em prazer de casa. (Atenção professores!). 
Aula do querido professor Navneeth.

Interessante que ainda almoçamos com eles, ficamos boa parte do dia por lá e não vi nenhum smartphone, nem tablets, nem celulares comuns nas mãos dos alunos ou de professores. Mas vi muito conhecimento vivo e de vida sendo alí construído. (Boa refexão a se fazer.) E, em meio a intensa vegetação, lá estava a biblioteca com uma metáfora pronta sobre a aprendizagem e a construção do conhecimento. Contarei na próxima postagem, para então falar de Srishti com seus lindos e integrados projetos.

18 de fev. de 2015

137. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: ÍNDIA E A EDUCAÇÃO POR PROJETOS: MUMBAI



As próximas postagens tratarão de projetos educacionais visitados na Índia. Serão postagens divididas por cidades. Viaje junto. Acompanhe, aproveite, acrescente. Sempre há o que aprender e ensinar.
Das visitas feitas em Mumbai relacionados a educação, destaco a renomada educadora Sophie Ahmed, que apresentou a mim e a Edna Marchini (grande amiga e educadora) o modo de viver dos indianos, algumas atrações, as praias de Mumbai (Chowpati e Juhu), sua coleção de brinquedos com exemplares do mundo todo e o seu espaço educativo voltado à aprendizagem da criança mediante os jogos e os brinquedos. Uma grande pesquisadora e uma lenda viva cheia de vida em seus mais de 80 anos.

Na Billabong High International School, fomos recebidos pela querida Lina Asher, uma australiana com sangue indiano, idealizadora e fundadora desse projeto educacional, um dos mais importantes da Índia. Trabalham baseados nos mecanismos cerebrais de aprendizagem, tema que venho defendendo e compartilhando há  anos. Possuem a consciência de que, assim como os japoneses, os indianos desenvolvem mais o hemisfério cerebral esquerdo. Portanto, investem em atividades que exploram também o hemisfério direito, chamados por alguns neurocientistas como o hemisfério do século 21, devido as suas especificidades. É o hemisfério capaz de enfrentar desafios, pensar criativamente, ter visão sistêmica e inovadora. Valorizam ainda, o desenvolvimento  da inteligência racional tanto quanto a emocional, outra competência de grande importância nos dias atuais. E exploram as múltiplas inteligências numa prática democrática, que cria diálogo entre o oriente e o ocidente, e que prepara o aluno para o hoje, sem perder o olhar para o amanhã e as competências que se farão necessárias. Na prática, percebi algumas contradições em relação ao discurso, não tão diferente do que o que vemos por aqui. Afinal, para agir conforme nossas concepções expressas é preciso primeiro tomar consciência dos condicionamentos incorporados, que não são tão óbvios assim, para então transformá-los na experiência. Questão de consciência, motivação e tempo. O mais importante estão fazendo: caminhando e juntos.

Próxima parada, Muktangan um projeto inglês que tem uma escola de formação docente com parceria de sete escolas municipais de comunidades indianas educacional e economicamente marginalizadas. Formam seus professores em teoria e prática, para que ganhem autonomia, multipliquem-se e impactem a política por uma educação melhor. A primeira tarefa dessa formação é ensiná-los a falar inglês para que formem as crianças nesse idioma que, na Índia (e no mundo), favorece melhores oportunidades. No primeiro ano, os futuros professores aprendem fundamentos pedagógicos. No segundo, conectam teoria e prática. E no terceiro,  vão à prática com foco nos objetos da Pedagogia. Além de lhes ofertarem uma boa base, promovem-lhes grupos de estudos e discussões entre professores, coordenadores, gestores para trocarem ideias e conhecimentos por um bem comum. Participei desses dois momentos: da formação dos professores e de sua atuação em sala de aula. Interessante o processo. Partem de uma comunidade carente, formam seus agentes para nela atuarem e transformarem em busca de melhores condições de vida. Lembrando que ter melhor condições de vida não se resume a ter mais, mas sim, a ser mais. Generosidade, responsabilidade e dignidade são marcas desse vivo projeto que encanta e proclama com Gandhi: “Viva como se fosse morrer amanhã. Aprenda como se fosse viver para sempre.” Um bom recado.
Próxima estação... Bangalore com dois projetos incríveis. Acompanhe.

11 de fev. de 2015

136. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: ÍNDIA E A EDUCAÇÃO GERAL


Tenho sentido urgência em conhecer os países, in loco, antes que a globalização tire deles o que há de mais interessante: a própria cultura com suas especificidades. Por isso, as últimas postagens trataram da cultura da Índia, que diz também da educação e da formação do ser. A Índia não é país que se destaca em educação. Mas, há projetos belíssimos que merecem ser compartilhados. Iniciemos com o que há em comum nas concepções e ações das instituições visitadas e que nos fazem refletir sobre as nossas.
Os projetos educacionais envolvem todos no processo. A equipe pedagógica, os alunos, funcionários, os pais. Cada um tem o seu papel definido e espera-se que o faça bem feito. E para fazer bem feito é preciso incluir o outro pois, como vimos, o bem estar de um depende do bem estar do outro. Isso faz uma diferença! Também assemelham-se no modo como vêem o educando. Um ser protagonista que requer ser desenvolvido no aspecto físico, intelectual, mental e espiritual. Espiritual que não se reduz ao sentido religioso, mas sim à formação do eu interior, muitíssimo valorizado na cultura.
Interessante notar que antes de qualquer atividade, e isso incluía os seminários de educação que participamos, havia uma introdução que objetivava levar os participantes à concentração, colocando-os na mesma frequência e harmonia. Uma música, um mantra, uma atividade meditativa, uma dança conjunta, uma construção de mandalas são exemplos que por lá vivi em diferentes ambientes educacionais.
Assemelham-se ainda nos espaços físicos. Poucas coisas, sem luxo, contendo apenas o que faz sentido usar. Curioso, que a maioria das escolas preferem o chão a vi mesas e cadeiras. Em geral, professores e alunos sentam no chão, descalços e em círculo para não haver diferenciação entre o ensinante e o aprendiz. E tanto professores quanto alunos fazem os seus registros em esquemas ou mapas conceituais, que sabemos que é uma excelente maneira de organização do conhecimento externo e interno.

Apesar da não diferenciação, era claro uma hierarquia na instituição, mas com relações bem integradas. Como exemplo, ilustro as refeições. Diretor, funcionário, aluno, visitante, cada qual tinha o seu espaço. Mas todos comiam com a mão, a mesma alimentação e lavavam os seus pratos. Linda metáfora.
Professor e Diretora do Centre for Learning
O ambiente escolar era vivo e colorido. Pés no chão, literalmente. Simplicidade em grandeza que desnudavam o meu ser, colocando-me de frente a tantos condicionamentos. E para além do quociente intelectual (QI) e o quociente emocional (QE), as instituições viviam o QG: quociente de Gandhi. A imagem abaixo já diz tudo.

Nas próximas postagens contarei dos projetos específicos, daqueles que me fizeram sentir e fizeram sentido.  Serão postagens divididas por cidades. Mas todos os projetos tem algo a nos acrescentar. Acompanhe, aproveite.

18 de jan. de 2015

135. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: ÍNDIA E SUAS CURIOSIDADES III


Na Índia há muitas sensações que não se nomeiam. Mas há as que são possíveis compartilhar. Assim, seguem mais algumas curiosidades desse interessante povo, de sua cultura e educação.

ATENCIOSOS
Num dos dias fui dormir bem indisposta e acordei sem hora. No café da manhã, o garçon adiantou-se antes de eu sentar perguntando-me se eu havia melhorado, se eu queria algo especial para comer. Como ele soube? Essas coisas acontecem na Índia. Atenção e cuidado.


GENEROSOS
Um dos princípios que notei nessa sociedade é que o bem estar de um depende do bem estar do outro. Com isso, tem-se um povo generoso, que contrasta com o nosso egocentrismo, egoísmo, bem estar próprio. Um exemplo: Estávamos numa favela ameaçada de destruição. Esgoto a céu aberto, casebres, cheiro muito forte, sujeira. Os moradores, ao nos notarem, vestiram suas melhores roupas e vieram timidamente conversar. Nada pediram. Pelo contrário, levaram-nos para um espaço que nos protegia do sol e do forte calor. Serviram água, biscoito e tchai, feito com especiarias, leite e chá preto. Eu pensava na procedência da oferta, enquanto observava tais vidas. Mais uma lição: O indiano é mais ação do que palavra. Brindamos com o tchái, apimentado, e dançamos deliciosamente uma ciranda.


OLHOS
O olhar do indiano é forte, intenso, triste, seguro, contemplativo. Atrai feito imã. Assim viu e sentiu o meu olhar.


NÃO COBIÇAM, NÃO OSTENTAM
“Impuro e desfigurante é o olhar do desejo. Só quando nada cobiçamos, só quando nosso olhar se torna pura contemplação, é que se abre a alma das coisas, a beleza.” Herman Hesse em Minha Fé.
Tentei explicar para umas adolescentes que o nosso povo é  consumista, valoriza o ter e o parecer. Mas isso não lhes fazia sentido. Afinal, pra que ter tanta coisa? O indiano parece ser feliz com o que tem. Não fica desejando, cobiçando ou ostentando. Tem o que necessita e se contenta contente. Perguntaram-me sobre a segurança no Brasil. Disse-lhes que não era país de todo seguro. Havia muito roubo. Exatamente, porque diferente deles, nós cobiçamos e ostentamos. Damos mais valor ao que tem o ser exterior, enquanto eles primam pela evolução do ser interior. Isso faz uma diferença!



SER E TER
Eles são muito voltados ao eu interior, ao seu desenvolvimento e a sua elevação. Talvez o  sistema de castas tenha os ajudado a serem assim, como o próprio hinduísmo que ajuda o indivíduo a experimentar a divindade e a encontrar a verdadeira natureza de seu ser. Esta valorização se mostra também em metáfora nas construções. Fui a alguns apartamentos e casas de indianos de classe média-alta e alta. As contruções eram velhas, sujas, sem trato. Mas o interior das casas era repleto de obras de artes, móveis bonitos, decoração requintada e de bom gosto. Ou seja, maior valor no interior em detrimento do exterior.




SEGURANÇA
Em meio aquela multidão raras vezes me senti ameaçada, e as que me senti foram muito mais pela minha herança cultural do que pela situação. Claro que num país populoso desse fica-se tenso. Mas pude relaxar minhas neuroses de prevenção contra roubos e furtos de objetos ou de vida. Como é bom! Sempre sinto isso quando saio do país. Mas, de novo, a Índia me surpreendeu. E, fiquei tão relaxada nesse quesito que no meu último vôo dessa jornada já a caminho de casa, fui passar no RX e encontrei um casal de italianos com problemas e fui ajuda-los. Segui com eles conversando e só depois de 50 minutos, graças ao atraso do vôo, é que me dei conta de que havia esquecido minha mala de mão no RX. Voltei correndo, e no Brasil, a encontrei. Ufa! Viva!



PROPINA
Bem evidente a corrupção no trânsito indiano. Nosso ônibus ou carro eram sempre parados. Conversavam em hindi, mas pelo tom do diálogo e pelas rupias passadas pela janela, era fácil imaginar o que acontecia. Mas um dia, a briga parecia grande. O motorista era acusado de falar no celular. Lá se foi mais uma nota. Curioso é que o motorista não tinha celular. Coisas da Índia!

NÓS E ELES
Corrija-me se eu estiver errada,
Nessa rápida generalização.
Os indianos focam mais o ser.
Os brasileiros mais o ter.
Os indianos focam o interno.
Os brasileiros, o externo.
Os indianos tem milhões de deuses.
Os brasileiros um único Deus e milhões de deusezinhos.
Na Índia há várias línguas
No Brasil apenas uma já une.
A quebra da moral aos indianos anuncia a vergonha.
A dos brasileiros, a culpa. Minha culpa, minha tão grande culpa.
Os indianos buscam a felicidade a partir do que tem.
Os brasileiros almejam a felicidade a partir do que não tem.
Os indianos...
Os brasileiros...


No próximo post, falarei de alguns projetos educacionais bem interessantes que por lá conheci. Acompanhe, comente, aumente o conhecimento. Deixe aqui a sua contribuição. 

13 de jan. de 2015

134. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: ÍNDIA E SUAS CURIOSIDADES II


A educação diz da cultura, que diz do ser. E na Índia, quase tudo tem um sentido. Assim seguem outras curiosidades que contextualizam o cenário vivido e nos ajudam a refletir também sobre nós e a nossa cultura onde se insere a educação.








NAMASTÊ E SHUKRIÁH
Duas palavras mágicas. Shukriáh quer dizer obrigado. E eles ficam bem felizes ao ouví-la. Namastê é uma maneira respeitosa de cumprimentar ou iniciar uma conversa e quer dizer algo como: O meu deus interior saúda o seu deus interior. É palavra que se diz também com corpo. Junta-se as palmas das mãos e curva-se o corpo. E é mágico o que acontece quando os corpos se curvam.  


PÉ NO CHÃO
 Em todo e qualquer lugar que se vai é preciso ficar descalço. E não só em interiores. Por isso, nada melhor que uma prática sandália que se tira e põe. Alguns turistas usam um sapato de algodão específico para tais locais. Mas como viver e sentir a Índia sem ter os pés no chão?


DIVERSIDADE
A Índia é pluralista, multilíngue e multiétnica, e é de uma plasticidade estonteante.  A língua mais falada é o Hindi, embora o Ingles seja uma língua bem difundida e que traz oportunidades. Há deuses aos milhões, e há diversas formas para adorá-los, pois a verdade única pode ser vista de diferentes formas e pessoas. Para Herman Hesse, o indiano é o povo mais genial da Terra em termos de religiosidade. No livro Minha Fé, diz que o hinduísmo, a religião dominante no país, com capacidade de transformação criadora, e em milhares combinações, admitiu elementos estranhos com infinita generosidade e tolerância. Exatamente como os rostos e figuras dos deuses hindus de vários braços, tem essa religião mil rostos, primitivos e refinados, infantis e másculos, suaves e sombrios em seus diversos e contraditórios dogmas, ritos, mitos, cultos todos convivendo pacificamente.
Exatamente como vi. E o respeito a diversidade pareceu-me um dos pontos alto desse país, ainda que se veja longos e sangrentos conflitos como no Paquistão e Caxemira.


ASHRAM
Estive em alguns e são fundamentais para acalmar a alma e o ouvido das buzinas. Na antiga Índia servia como eremitério hindu para os sábios. Hoje funcionam como um centro para promover a evolução espiritual dos seus membros, orientados por um líder religioso ou um místico. (foto ashram urbano) Talvez o mais importante que fui seja o SATYAGRAHA ASRAM, a beira do Rio Sabarmati, em Ahmedabad, onde Gandhi morou por 12 anos, formou uma escola, desenvolveu uma  filosofia (SATYA significa verdade e AGRAHA significa firmeza, constância) para o movimento de resistência a não-violência na Índia em prol da Independência do país, que ocorreu em 1947. Seis meses depois foi assassinado. Hoje esse Ashram é um museu com pinturas, fotos, cartas, manuscritos, relíquias pessoais, livros, ou seja, memórias concretas que dizem da vida de Gandhi. E como ele dizia: “A minha vida é a minha mensagem.” Mensagem que deixou clara: “Be the change you wish to see in the world.” (Seja a mudança que você deseja ver no mundo.) Há ainda em funcionamento um centro para crianças órfãs, que dá educação e envolve as crianças em trabalhos manuais junto com a comunidade e as vendem em uma loja local. Roupas, bolsas, almofadas, sacolas de presente, caixas, tudo feito a mão.



ALIMENTAÇÃO
Poderia resumir a comida indiana em uma palavra: PIMENTA. Come-a do café ao jantar, num prato grande acompanhado de potes menores para as várias opções, na maioria vegetariana. Difícil era degustar os alimentos que nos faziam soltar fogo pela boca e ventas. Dizem que a pimenta esteriliza os alimentos. E acostumam-se desde cedo. Em geral, as crianças mamam por um ano, sendo logo introduzidas ao ardor. No meu caso, os doces (Hum...) me salvaram. Deliciosos. Curioso... (e dica implícita). O alimento é comido com a mão direita. A esquerda é usada para se limpar. Há também talheres, mas pouco usam. E é bem comum, colocarem a mão em nossa comida ensinando-nos a prepara-la.
A cultura não é uma maravilha? Como ousar dizer qual está certa?

No próximo post um pouco mais da Índia. Acompanhe, comente, aumente o conhecimento. Deixe aqui a sua contribuição.

7 de jan. de 2015

133. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: ÍNDIA E SUAS CURIOSIDADES I


Fomos a 6 cidades na Índia. Mumbai, Bangalore, Pune, Ahmedabad, Agra, Nova Delhi. Visitamos Universidades, escolas, projetos educacionais,  favelas, templos, monumentos, ashrams, museus. Participamos de rituais, laboratórios e eventos ricos em trocas culturais e pessoais. Jantares e encontros com mentes brilhantes, gente interessante e comidas picantes. E ainda de redondas rodas de ciranda que nos colocavam, brasileiros e indianos, no mesmo fôlego e compasso, mais do que no BRICS.
Dessas experiências, iniciarei compartilhando curiosidades que contextualizam o cenário vivido para então chegar à educação.

POPULAÇÃO:
Eu achava que o Brasil era populoso, mesmo já tendo ido à China. Mas desta vez foi diferente. Talvez eu tenha sentido mais as pessoas. Entre no Taj Mahal e sentirá o que quero dizer. Sei que achei o nosso país pequeno. A Índia tem 1 bilhão e 200 milhões de habitantes. Um bilhão a mais do que nós! Imagine a Finlândia com seus 5 milhões! Relativo. Tudo é relativo.


CURIOSA PROPORÇÃO:
Perguntei a um guia qual a proporção entre homens e mulheres, visto que se vê muito mais homens pelos lugares. Achei curioso o modo como respondeu: “Para cada mil homens, 900 mulheres.” Nós usaríamos a proporção 10 para 9 ou no máximo 100 para 90, não é? Afinal, somos apenas 200 milhões! Tudo é relativo!

POLUIÇÃO E CORES:
As cidades possuem construções antigas e mal cuidadas, sendo marcadas pela cinzenta e densa poluição. Mas, da monocromia cinza brotam cores vindas das vestimentas, das especiarias, das pinturas e decorações. Mandalas de flores espalham-se pelos lugares, colorindo e embelezando o ambiente. Um charme! Enquanto a poluição promove lindos pores do sol, avermelhando em espetáculo os vários tons de cinzas. E mais uma vez, as várias conexões caóticas, neste caso, das cores, não agridem o olhar, mas deixa tudo lindo! Coisas da Índia.


VESTIMENTA:
Há duas roupas bem comuns entre as mulheres, sempre com lenços, caximiras, panos, muitos panos. O sari é composto por um tecido de 6 metros que se enrola ao corpo. Usa-se com um top. E o shalwaar kameez que é um conjunto de calça, túnica e dupatta (echarpe), usado e aprovado por mim. Ultra confortável. Entre os homens se vê dhoti, um pano enrolado no corpo como se fosse saia, mas é mais comum o kurta pajama, que é a bata longa com a calça. Mas se vê muito homem de calça e camisa, na maioria xadrez. E entre os jovens começa-se a se ver os efeitos da globalização e ocidentalização.
Curioso... Os saris mostram a barriga. E está tudo bem até nas mais foras de forma ou mais velhas. Mas ouse mostrar as pernas! Adoro essas construções feitas pela cultura! Ajuda a refletir também a nossa!

ASSESSÓRIOS E CIA:
O assessório costuma ter muita cor e brilho. O mais frequente é o bindi, uma marca na testa. São de várias cores e formatos e são várias as histórias de seu simbolismo. Em suma, o chamado terceiro olho ou olho da sabedoria, é para os hindus um dos pontos mais importantes do corpo. Serve como proteção e para a concentrausam a  homens gostam da tintura e comportamziam: ção  do eu interior no verdadeiro mundo, o espiritual. Corresponde a intuição, percepção e desenvolvimento do conhecimento. E em muitos lugares é-se recebido com a marca. Muitas mulheres também pintam a fronte na raiz do cabelo emitindo sinais culturais: é casada. E é comum homens com hena.


TRÂNSITO:
Sabia que o transito na Índia era uma loucura, mas não imaginava o quanto. É experiência com emoções andar de Tuk Tuk (Oto) em meio a tantos outros, a tantas pessoas, buzinas, carros, motos, ônibus, a tantos tudo tão próximos do corpo! Pode-se ainda deparar-se com vaca, camelo, macaco, elefante em meio a pista. Sinal vermelho e verde? Existe, mas não tem serventia. É na base do “Salve-se quem puder” e do “vai ou vai”. Incrivelmente, raríssimos são os acidentes, atropelamentos, brigas, xingamentos. E vê-se muita coordenação,  percepção, habilidade espaço-temporal e flexibilidade dos que participam desse caos loucamente embalado a muita buzina. Os indianos diziam: “Buzinar é costume.” Mas como saber qual a buzina é para você? Eles não sabiam. A buzina parecia ser apenas um som da Índia.

Na próxima postagem, outras tantas curiosidades. Acompanhe, comente, acrescente.