17 de jun. de 2015

152. PARA GABI EM SEUS 21 ANOS.


Quando fiz 21 anos meu pai lançou-me um enigma como sempre gostava de fazer. E, como sempre, eu passava horas, dias ou até anos até sossegar com uma boa resposta. E nesse dia não foi diferente. Ele disse: “Parabéns, minha filha! Agora já é dona do seu nariz.” Fez uma pausa e continuou: “Mas lembre-se: não é dona dos buracos que nele há.” A expressão “ser dona do nariz” era-me familiar. Ser independente, livre, responsável por meus atos eu já vinha sendo ao morar sozinha, experiência muito importante à minha formação. Mas, o que significava não ser dona dos buracos do nariz? Já modifiquei alguns vezes essa resposta, mas hoje eu diria que ser dona de si não significa fazer o que se quer, nem quando, onde e por que se quer, pois há os buracos. Os buracos hoje simbolizam tudo o que não sou eu, mas que eu interajo de certa forma. Lembram-me que vivo no mundo, com o mundo e com os outros, e que devo ter uma contribuição responsável com os seres e ambientes, ciente de que esses “buracos” são também ocupados por outros. Que por eles coisas boas e ruins podem ser “respiradas” e por isso que é fundamental saber onde coloco o meu nariz. Mas que é graças ao que não me pertence, o buraco, que posso oxigenar, movimentar e dar vida à vida. Parabéns, minha filha! Há 21 anos vivo a delícia de ser mãe e de tê-la como filha. É um encanto e um presente participar e notar o quão brilhantemente constrói a sua vida e o seu ser com tanta consciência de seu nariz com seus buracos. Viva! Bravo!

11 de jun. de 2015

151. À MODA ANTIGA


Recebi um cartão de minha filha que está na Austrália, e que aproveitou para viajar ao Cambodja, Laos e Tailândia. De volta à cidade onde mora pôs-se a enviar os postais que havia comprado. “Gosto da delicadeza e do carinho implícito ao colocar um cartão no correio.”, revelou-me, enquanto eu a agradecia. Claro que recebo muitas mensagens instantâneas dela por whatsapp, facebook, email. E amo todas. Mas receber um cartão pelo correio levou-me ao céu e chegou com muito mais sabor. Por trás dele havia o tempo gasto na escolha do cartão, a escrita pensada, o local escolhido para se inspirar, a ida ao correio, a compra do selo, o preenchimento do envelope... Um cartão que levou dias e dias para chegar, atravessou o oceano, percorreu quilômetros, passou por diversas situações. Senti como se todo esse processo apurasse o sabor do alimento que trazia. Voltei no tempo. Como era bom aguardar o carteiro, esperar por cartas, respondê-las. Claro que a tecnologia nos possibilitou ter ainda mais contatos e é incrível poder trocar mensagens em tempo real independente da distância e do tempo. Mas, assim como o fastfood, não têm o mesmo sabor. Não... não abro mão da tecnologia que é prática e eficiente. Mas saber saborear esses prazeres simples é algo que tem me valido a atenção, o exercício e a prática. Obrigada Gabi por esse momento tão especial que me proporcionou. Obrigada por todo o processo, pela imagem tão significativa, pelo conteúdo tão emocionante e por suas digitais por todo ele. Fez sua mãe prá lá de feliz. Te amo.

3 de jun. de 2015

150. DESCONECTAR PARA CONECTAR.

Visita na casa de alguma avó.
Esses dias recebemos uma mensagem de nossa filha que está há quase um ano na Austrália: “Por aqui está tudo bem, não se preocupem. Mas, vou fazer uma experiência e ficar três dias sem o celular.” Perguntei o motivo e obtive como resposta: “Mãe, eu quero perceber o que estou perdendo ao meu redor enquanto fico conectada ao mundo.” Achei brilhante a sua ideia e visão, mas queria me certificar se havia algum outro motivo. Coisas de mãe. Imediatamente conectei o facetime para me abastecer, acalmar, vê-la e saber mais. Pausa. Viva sim esta tecnologia que tem muitos benefícios. Mas,  encaremos de frente. Estamos viciados nela. E isso tem atrapalhado também a relação entre pais e filhos. Um exemplo? Observe qualquer lugar onde haja família “unida”. Restaurante, shoppings, festas. Em geral, cada um está no seu mundo. E Gabi tem razão: estamos tão plugados que mal percebemos o que e quem está ao nosso redor. Quando saímos em família, em geral, nossas filhas pedem para não levarmos os celulares. Não é maravilhoso? Sinal de que gostam e priorizam a nossa presença e gostam de conversar conosco. Mas isso não é sorte ou surgiu do nada. Investimos para tanto. E é esse desafio que quero propor: desconectar-se um pouco do mundo que está nas mãos para se conectar, sem distração, com a família. Relação entre pais e filhos se aprende e requer atenção, intenção, continuidade, espaço, diálogo, carinho, respeito, prazer, confiança, troca, tempo entre outras construções. Não se dá por um acaso. Atente ao seu redor e não perca a principal conexão.


26 de mai. de 2015

149. PEDIDO RAPIDAMENTE CUMPRIDO.


Esta história não fui eu quem escrevi, mas adoraria que tivesse sido. Tampouco sei quem a escreveu. Mas achei que faz muito sentido e nos coloca em boa reflexão.

“Um dia, minha mãe e eu conversávamos sobre a vida e a morte e eu lhe disse:
- Mãe, se um dia eu estiver num estado vegetativo, em que minha vida dependa unicamente de aparelhos, desligue, por favor, as máquinas que me mantêm artificialmente em vida! EU PREFIRO MORRER!!!
Então eu vi minha mãe se levantar, me olhando cheia de admiração... E puxando decididamente os fios, ela desligou: a tv,
o dvd,
o cabo de internet,
o computador,
o MP3/4,
o playstation,
o wifi,
o fixo...
E ainda me arrancou:
o celular,
o tablet,
o Ipod.
EU QUASE MORRI!"

Para bom entendedor... uma história basta.

21 de mai. de 2015

148. CUIDADO COM O QUE SE ENSINA!

The babes in the wood de Thomas Crawford.
Metropolitan Museum - NY

Esses dias ouvi uma história de um adulto que serve de reflexão e alerta na educação dos filhos. Contava que na infância sua mãe dizia aos filhos que quando não se arrumava a cama o anjo da guarda não saia dela e portanto não os acompanhavam durante o dia. Apavorados, eles não falhavam. E a mãe resolveu o seu problema de reclamar todo dia. Já adulto, um dia saiu sem tempo de arrumar a cama. Bateu o carro e logo se lembrou do que a mãe dizia. Tentei receber essa informação como uma criança e tive logo uma angústia: Se o anjo da guarda não levanta da cama, logo ele dorme comigo. E se assim for, e como não o vejo, posso criar medos. “O que ele pode fazer comigo?” “E se eu deitar em cima e o machucar?” Mas pensando como adulta e com o que já construí até aqui, continuei a conversa. Notamos que várias outras vezes ele não tinha arrumado a cama e nada havia acontecido. Duvidou então dessa verdade. Mas confessou a angústia que sentia. Nem sempre queria arrumar a cama, mas morria de medo de não fazê-lo. A questão aqui não é se o anjo da guarda fica na cama, se ele existe, se é verdade isso ou aquilo. O fato é que a infância deixa marcas profundas em nossa vidas que dirão do nosso ser. A ela agradecem os psicólogos e analistas. Muitas vezes usamos de fantasias com as crianças para facilitar a resolução de um problema, ou apenas repetimos “verdades” sem pensar. Sugiro fazer sempre uma “faxina” nos conceitos e ações antes de passá-los adiante. Resolver um problema e arrumar outro não parece boa pedida. A não ser para psicólogos e analistas.

15 de mai. de 2015

147. A IMAGEM E A MENSAGEM.


Esta imagem virou um viral nas redes sociais, pois é mesmo impactante, emocionante e forte. A foto descrita como “irmã de dois anos e meio protegida por irmão de quatro anos no Nepal” logo nos faz associar aos terremotos recentes na região que tantas mortes e destruições causaram. E imaginar que as crianças ficaram órfãos. Dói só de pensar. Mas, segundo a BBC News essa foto foi tirada em 2007 em Can Ty no Vietnã pelo fotógrafo Na Son Nguyen. Ele conta que passava pelo vilarejo e parou para observar duas crianças que brincavam enquanto os pais trabalhavam na lavoura. A menininha chorou com a chegada de um estranho e o irmão abraçou-a para confortá-la. Nguyen achou emocionante e fez imediatamente o registro. Claro que, independente da história real da foto, deve haver várias crianças no Nepal agora em semelhante imagem. Volto a ela. Note a linguagem corporal das crianças. O que ela me diz? Que o tamanho da emoção da criança, seja de medo, alegria, raiva, tristeza, afeto, independe do tamanho da problemática da história. Por isso, não devemos menosprezar a intensidade da emoção infantil dizendo “isso não é nada”, “é bobagem” ou ainda comparando com as nossas emoções que parecem sempre maiores. Para a criança as suas emoções são reais e intensas e precisará de vivências para conhecê-las e aprender a lidar com elas. Deve assim ser reconhecida, respeitada e acolhida como fez o irmão e ir além. Deve-se cuidadosamente trabalhá-las para o seu equilíbrio e amadurecimento. 

12 de mai. de 2015

146. AMO QUANDO A CRIANÇA ME DÁ UM NÓ!

Sistema ósseo: estrutura para o que viria.

Assisti com uma criança um vídeo lindo da BBC tendo como fundo a música “What a wonderful world”. A letra, falada em poesia, era ilustrada por maravilhosas imagens da natureza. Plantas, animais, rios, mares, sóis e luas movimentavam-se em versos a encantar nossos sentidos. E eis que a criança suspira e diz: “Como eu amo a natureza!” E é mesmo incrível notar como a criança é extremamente sensível à natureza e a tudo o que a atinge. O que nos ajuda a educá-la para continuar amando e não cair na armadilha “da força da grana que ergue e destrói coisas belas” (Caetano Veloso). Biofilia é o que a criança tem de sobra e que falta a tantos adultos. A palavra tem origem grega. Bio significa vida. Philia, amor. Ou seja, amor à vida, instinto de preservação seja lá ao que for. Há vários anos, estudava com alunos de 8-9 anos os sistemas do corpo humano. Para deixar mais concreto sugeri que abríssemos um mamífero, mais especificamente, um rato. Afinal somos todos parecidos por dentro. A crianças ficaram  indignadas e horrorizadas comigo. Mas, gostaram da proposta e sugeriram abrirmos outro mamífero: um indigente já morto. Minha cabeça deu um nó por um bom tempo. “Preferir abrir um homem a um rato?!”, pensava. Então lembrei-me da biofilia, voltei ao olhar da infância e notei vários condicionamentos culturais construídos em mim. Afinal, só queriam trocar um vivo por um morto! Fazia sentido. Mas não abrimos nem homem, nem rato. Encontrei outras formas também eficientes. E novamente estava eu aprendendo e crescendo com as crianças.

26 de abr. de 2015

145. JÁ SEI NAMORAR!



A mãe de Júlia de 7 anos estava preocupada com o rápido desenvolvimento da filha no quesito sexualidade. A menina era provocadora, já sabia fazer caras e bocas, não saia do facebook, já usava maquiagem e dizia ter namorados. A mãe chama-a para uma conversa. Feito adolescente, Júlia vem se arrastando com cara de “Que saco!” A mãe diz: “Vamos conversar desses namorados.” Júlia responde: “Você quer que eu te ensine a namorar!?” Infelizmente, conheço algumas Júlias. Digo “infelizmente”, pois sou totalmente a favor da criança viver a tão passageira infância. Mas também conheço muitos pais de Júlias. Observemos ao redor e pensemos sobre. Já repararam como os adultos adoram perguntar às crianças se elas já têm namorado? Pra que? Se as Júlias usam maquiagem, quem as comprou? Com quem aprenderam a provocar? Será mesmo necessário ter um smartphone aos 7? E porque não saem das redes sociais? Não estaremos nós também fixados nelas? O que tenho proporcionado nos tempos livres da criança? Tantas outras perguntas poderíamos nos fazer. Mas, o mais importante é lembrar que tudo, TUDO o que a criança faz ela aprendeu. E é essa a minha provocação do dia: O que tem sido proporcionado à criança para aprender e desenvolver? Então, alguém pode reclamar: “Mas todas as crianças hoje usam maquiagem, tem celulares, namoram! Vou criar um estranho no ninho?” Eu respondo: “Não seria esse ninho estranho? Todo mundo igual?”
Queridos pais de Júlias, deixemo-nas serem crianças.


23 de abr. de 2015

144. QUE TIPO DE PAI/MÃE EU SOU NA ESCOLA?


Aposto que você já ouviu na escola do seu filho a palavra “parceria”.  Por que as escolas têm insistido tanto nisso?
Voltemos um pouco no tempo. Pais trabalhavam fora e eram os provedores. Mães cuidavam da educação dos filhos, enquanto a escola instruía. Rapidamente essa realidade ficou para trás. Pais e mães viraram profissionais e coube à escola todo o resto. Há vários anos, quando eu era professora de crianças, uma mãe veio reclamar que eu não estava ensinando o seu filho a rezar (e a escola era laica!) nem a amarrar o tênis. Fiquei pensando nas mudanças que estavam ocorrendo e nas que estavam por vir. A escola, diante da nova realidade, viu-se com papéis acumulados e com obrigações que não eram dela. Com o tempo e com o desenvolvimento das ciências, a escola percebeu que o seu papel era bem maior que a instrução, mas se viu sobrecarregada e começou a falar em parceria, explicitar os papéis de cada um e a colocar limites, ainda que escutasse injustas reclamações de incompetência. Pense: você tem um filho para educar. A escola tem muitas crianças! Não dá para terceirizar a educação dos filhos! Mas complementar as educações, escola e família, pode ser uma proveitosa e maravilhosa parceria. Então vamos lá. Que tipo de pai/mãe você está sendo? O que cabe a você e à escola? Pode melhorar o seu papel? Pode ser mais parceiro? Pense cuidadosamente, pois entre a escola e a família há o seu filho. E lembre-se que reflexão sem ação pode levar à tomada de consciência. Que já é bom, mas não é muito.

20 de abr. de 2015

143. UM PASSO A FRENTE?


Sim e não, mas um passo por vez. Explico. 
É muito comum observar pais desejando o próximo passo do filho. Rolou na cama, já querem que sente. Sentou, já querem que ande. Andou, já querem que fale. Falou, já querem que leia e escreva. E assim por diante. Por um lado, isso é bem positivo, afinal sabemos o que a criança é e o que ela pode vir a ser. E queremos ver progressos. Por outro lado, esse desejo pelo desenvolvimento, se não for bem administrado, pode ser negativo. Primeiro que gera mais ansiedade. E, já basta o tanto que ela brota em nós assim que viramos pais. Pode ainda levar-nos ao erro de superlotar a agenda da criança para que ela potencialize o seu progresso. Além disso, ouço muito a frase: “Não vejo a hora que meu filho faça isso ou aquilo.” Todavia, ao focar o que a criança poderá fazer podemos desfocar o que ela está fazendo. E é uma pena perder o momento. Estes dias Gisele Bündchen despediu-se das passarelas e o motivo principal pareceu-me ser os filhos. Sabia que estava a perder desenvolvimentos importantes no aqui e agora. Não estou sugerindo que abandonemos a “passarela”, mas que vivamos e nos encantemos com cada momento que a criança vive. Pois o presente se faz do passado. E o futuro se faz do presente. Assim, pensar a um passo à frente é fundamental para fazer planejamentos e tomar decisões. Mas viver cada passo dado, cada nova aprendizagem da criança (e que são muitas!), é o melhor investimento e o melhor presente. Caminhemos.