21 de dez. de 2017

206. O MUNDO ENCANTADO E ENCANTADOR DA CRIANÇA.

Na última postagem do ano da minha coluna na Revista Pais & Filhos http://paisefilhos.com.br/blogs-e-colunistas/de-olho-no-cotidiano/seu-filho-no-mar-de-possibilidade, contei uma mesma situação retirada do cotidiano entre pais e filhos, mas com a mediação de duas mães diferentes, chamando a atenção para as consequências de nossa ação em relação ao desenvolvimento da criança e de seu futuro adulto. Vale a pena conferir. Mas, nesta última coluna do ano, aqui no FILHOsofar, quero ressaltar o quanto o conhecimento que temos de cada fase da criança nos ajuda a “entrar em seu mundo” e fazer bom uso dele em prol do desenvolvimento da criança ou de apenas interagir melhor com ela. Conto o que me aconteceu. Estava em minha caminhada matinal, que acontece na beira do mar sempre que possível. Planejava mentalmente minha aula da noite, enquanto respirava profundo aquele ar e distraía-me com as crianças brincando no mar. Ando tão saudosa delas que não as perco de vista. No meio da caminhada, encontro uma criança de cerca de 3 anos, com uma Barbie-sereia nas mãos. Olhava para o mar e conversava sem parar. Olhei ao redor e não havia ninguém que com ela estivesse falando. Não aguentei, parei e perguntei:
-        “Você está conversando com a sua boneca?”
Sem hesitar e toda segura de si, como costumam ser as crianças desta idade, disse:
-        “Não, estou conversando com o mar.”
Entrei em seu mundo encantado, pois sei que com esta idade o desenvolvimento de seu sistema nervoso não permite ainda que distingua bem a fantasia da realidade, tem um pensamento muito mágico, sei que ainda está construindo como funciona o mundo e que fala muito sozinha como estratégia natural para melhorar a linguagem e a organização de seu mundo interno construído a partir de suas já tantas experiências.
-        “E o mar te responde?”, perguntei curiosa.
-        “Sim! Ele conversa com a gente.”, disse toda sabida.
-        “Você me ensina a falar com o mar?”, perguntei com interesse.
-     “É fácil! Você pode falar normal mesmo, do jeito que a gente fala, que ele entende.”, ensinou-me sentindo-se toda importante.
Então, postei-me ao lado dela e disse ao mar:
-        “Mar, você pode mandar uma onda molhar os meus pés?”
E no mesmo instante, veio uma onda e molhou os nossos pés. A menina olhou para mim com ar de satisfação e disse:
-        “Não falei que ele entendia?”
Comemoramos e agradeci o ensinamento. E, antes que a mãe aparecesse preocupada, disse-lhe:
-        “Vou continuar a minha caminhada, só que agora eu vou conversando com o mar.”
Ganhei outro sorriso, um beijo solto pelo ar, um aceno de mãos delicioso e saí feliz com tamanha fofura.
Isto o que quero ressaltar: Como é gostoso e gratificante interagir com a criança compreendendo o que se pode esperar dela, qual a melhor maneira de conversar, como podemos facilitar para gerar desenvolvimentos, o que vale ensinar neste ou naquele momento, como se encantar e como encantá-la e, especialmente, como aprender com ela. Vale muito a pena conhecer melhor a criança, seus processos e suas possibilidades, para ter ações mais assertivas.
Desejo a você, boas festas, uma feliz entrada em 2018, momentos incríveis com seu(s) filho(s) neste periodo de férias e que você possa se deliciar cada vez mais com o encantado e encantador mundo da criança, que nos faz, inclusive lembrar como éramos. Agora me dá licença que vou lá conversar com o mar. Feliz férias!

Ps: Em Janeiro, dedicarei-me às crianças com determinados transtornos, seus desenvolvimentos e como podemos agir para ajudá-las. E seguirá a linha de que o conhecimento amplia as nossas percepções e as possibilidades de ações. 
Até lá! Boas férias!

2 de dez. de 2017

205. AS FASES DA CRIANÇA E O MUNDO DA FAMÍLIA.


A criança não nasce sabendo do mundo, de si e das pessoas. Precisará de tudo aprender. A princípio, pelos SENTIDOS, EMOÇÕES e MOVIMENTOS. Leva o mundo à boca, desafia-se, explora os objetos, a si mesma, as pessoas, os tempos, os espaços, as relações de tudo isso e a sua relação com tudo isso. Estas experiências lhe proporcionam um primeiro conhecimento de como as pessoas e as coisas são e funcionam. E nesta fase, a cada dia, há sempre uma surpreendente novidade.

Com o desenvolvimento da LINGUAGEM o seu mundo interno ganha muitas possibilidades. Brinca, cria e representa o mundo que vive e conhece através de personagens, jogos simbólicos, de faz-de-conta. Conversa sozinha, interage com tudo e todos numa imensa e intensa vontade de explorar e aprender. Ao brincar de casinha, de médico, de bicho, de polícia ladrão, de luta, a criança, além de desenvolver a linguagem e habilidades sócio-emocionais, ela vive papéis que a ajudam a compreender as regras de cada segmento da cultura que está inserida, as suas convenções, seus problemas, suas diferenças, seus costumes. Pode refletir e incorporar as características e as ações de quem imita e aprende que o mundo não é ela e nem que tudo é do jeito dela. Estas experiências, ajudam-na a compreender melhor de si, dos outros e do  mundo, e a representá-los dentro de si. Isto a possibilita pensar, imaginar, entender, falar sobre ele, ainda que seja de forma desorganizada e sem lógica. Por exemplo, quando a criança nos conta uma história, não há ainda uma organização espaço-temporal, certo? O fim vem embolado com o meio que passa ao começo e volta ao fim. Isso é normal para a fase. Mas é momento que requer redobrada atenção ao que é oferecido à criança, pois ela ainda age como “esponja”, imita e absorve tudo sem crítica. Aliás, esta se ensina desde pequeno. E é bom fazê-lo.

Pois, o MUNDO EXTERNO que é oferecido ao seu filho, com suas concepções, valores, erros, acertos, medos, modos de viver e de ser, dirá de seu MUNDO INTERNO, de seu ser, de sua interação com o meio. Dirá de como ele agirá, pensará, amará, odiará, falará, perceberá, criará o mundo externo, que dirá do seu interno num processo sem fim. Ou seja, se uma criança recebe sempre elogios, é protegida de qualquer frustração e a mãe obedece a tudo o que ela pede, este será o mundo externo que ela internalizará, e a partir dele perceberá e agirá no mundo. Quando na escola, a professor não a destacar diante da classe, ou quando tirar uma nota baixa, ou não for tratada como rainha, é bem provável que sofra, que culpe a outros, que se desorganize, que fique agressiva, pois não foi este mundo externo que construiu em si. Por isso vale sempre se perguntar: QUE MUNDO OFEREÇO AO MEU FILHO? Claro que outros mundos virão. Mas o primeiro deles, é a família. E o primeiro deles será a base de tudo. Pense na sua vida e observe como tudo o que você é tem uma ligação com a sua criança. A infância é tudo. Cuide bem da do seu filho, da construção do mundo que ele fará.

Conforme a criança amplia suas representações, ela sente a necessidade de organizá-las, dar um sentido maior e passa a CATEGORIZAR os mundos que conhece. O mundo das profissões, dos animais, dos objetos engraçados, dos objetos escolares, além de amar as coleções. Nesta fase, é bom enfatizar a organização externa para ajudar na interna, e saber que a criança ainda pensa de forma bem concreta, ao pé da letra e com uma pré-lógica deliciosa. Para ela, um trânsito engarrafado, pode significar carros dentro de uma garrafa, assim como ao pé da letra, pode ser uma letra com pé. Mas, os estímulos cada vez mais diversos do meio, a mediação daqueles que interagem com ela, sua interação com eles e o amadurecimento do sistema nervoso, a ajudarão a progredir e logo conseguirá ABSTRAIR o pensamento, desenvolver a lógica, a perceber metáforas, expressões idiomáticas, fortalecer a sua personalidade, as suas verdades, valores, saberes de tantos outros mundos, usando as bases das construções do seu primeiro mundo. E num piscar de olhos está adolescente, adulto e parindo nova criança, que a princípio aprenderá pelos sentidos, emoções e movimentos...

Note que em todas as fases, a participação ativa da criança na EXPERIÊNCIA é fundamental. Afinal, não é possível desenvolver no lugar do outro. Assim, com bom senso, não devemos impedí-la, pois será como querer alimentá-la oferecendo-lhe um cardápio. Logo, quantidade e qualidade de experiências são importantes, assim como o modo como a criança interage com a oportunidade. E isso se aprende. Atenção! Dizer a criança que ela não é capaz, enche-la de medos, criar resistências, fazer em seu lugar, superprotegê-la, poupá-la, devem ser observados, pois são impeditivos de desenvolvimento. Vale diversificar atividades, não se acomodar só a tecnologia, criar boas oportunidades de aprendizagens e desenvolvimentos e reflitir sempre sobre o mundo oferecido ao filho, pois é dele que ele constituirá o seu primeiro e mais importante mundo. Base de tudo e de todo o resto. Atente-se a isso. Feliz mundos!


18 de nov. de 2017

204. NÃO VEJO A HORA!

A Persistência da memória. Salvador Dalí.
“Não vejo a hora que sente!"
"Não vejo a hora que ande!”
 “Não vejo a hora que faça!”
“Não vejo a hora que leia e escreva!”
“Não vejo a hora que cresça!”
“Não vejo a hora que canse!”
“Não vejo a hora que forme!”
“Não vejo a hora que trabalhe!”
“Não vejo a hora que case!”
“Não vejo a hora! Não vejo a hora!” E a mãe quando se dá conta que tanto olhou para o amanhã, lamenta o que passou, sente saudades e chora o que não viveu. Foi-se a hora sem agoras.
Note que nós humanos passamos por um processo de desenvolvimento, que será adiantado, potencializado, retardado, minimizado, de acordo com os estímulos do meio e a apropriação dos mesmos. Cada etapa tem seus encantos, detalhes, cuidados, estímulos que devem ser bem explorados para favorecer uma boa formação à criança. Sugiro ler e estudar as fases de seu filho, para saber bem aproveitá-las. Na próxima postagem falaremos de cada uma. Por ora, quero apenas reforçar: Substitua o “Não vejo a hora!” pelo agora. Por observações do processo do progresso, por anotações daquilo que vale lembrar (Sim! A gente esquece!), por interações ricas e prazerosas. Curta cada momento como único, pois ele é único e passageiro. E o futuro se faz de presentes. Não deixe que as horas passem sem histórias.

4 de nov. de 2017

203. NEM NEM NO ENEM.

Ao meu lado duas jovens conversavam. Uma delas contava o seu drama e a outra a apoiava. Seu desespero era com o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), que inicia amanhã. Dizia que não havia estudado nada e mal havia assistido as aulas. Preferiu o grupo que bebia e fumava escondido. Não! Não havia se preparado para o exame que abre as portas a tantas faculdades e universidades. E dizia freneticamente balançando as mãos: "Já chorei muito, muito mesmo. Não há mais o que fazer a não ser entregar a Deus. E… ter calma. Muita calma. O único problema é que quando mantenho a calma eu fico muito calma. E não dá tempo de fazer a prova." E a conversa continuou com mais do mesmo. Conversa típica de um "Nem Nem", isto é, "Nem estuda e Nem trabalha". E como diz a charge, tem sim um descuido dos pais. Além de falta de autoridade e grande despreparo da menina que não se percebe autora da própria vida. Por isso, gasta horas chorando e se lamentando com a amiga, ao invés de estar correndo atrás. E, como é de costume para gente assim, entrega a responsabilidade a outro. Afinal, se não der certo, há quem culpar ou apenas dizer: "Deus não quis!" Abram os olhos, pais. Ensinem seu filho desde pequeno, a assumir as próprias ações e a ir, paulatinamente, percebendo-se responsável pelo próprio desenvolvimento e vida. Mas, não basta blá-blá-blá. Ensinar requer tempo, dedicação, criatividade, vontade e viver o que se deseja e apregoa. Ou isso, ou um "nem nem" folgado e que ainda implica com tudo. Ou não?

17 de set. de 2017

202. A VOZ DA MÃE DE CRIANÇA COM NECESSIDADES ESPECIAIS.

Ministro disciplinas em pós-graduação de Neuropsicopedagogia. Os alunos são na maioria psicólogos e professores que almejam ampliar seus conhecimentos por uma melhor mediação com estas crianças em prol de seus desenvolvimentos. E sempre há mães de crianças com necessidades especiais com o mesmo propósito. E ninguém melhor do que elas para nos dizer o que sentem, o que fazem, quais as dificuldades e as alegrias provenientes desta relação. Assim, convidei Willy a nos dar seu depoimento e ela topou.

Com vocês, Willy, mãe de Mary (13) e Anna Carolina (6).



Aos filhos especiais

Escuto muitas pessoas falarem sobre ser mãe de uma criança especial:
- Deus só dá filhos especiais para pessoas especiais...
- Só tem o fardo quem consegue carregá-lo...
Entre tantos outros dizeres pré-estabelecidos.
Vou de encontro a tudo isso! Vou contar minha historinha!
Sou Wylly mãe de Mary (especial), que nasceu aos 8 meses, cesariana e só a mamãe Wylly que não ficou bem, mas a filhota estava muito animada para descobrir o mundo. Esse pequeno ser, ao nascer, me ensinou a amar minha mãe. Eu não fazia ideia do que era o amor de mãe, até que comecei a amar como uma mãe. Agora, toda ação de minha mãezinha é compreendida com sublimidade e amor. Esse pequena Mary, tão frágil e indefesa, veio ao mundo para me ensinar, me fortalecer e corrigir algumas falhas sobre o amor que eu desconhecia (respeito, paciência, renúncia e perdão). Eu aprendi a sentir o amor de mãe. E que grande oportunidade de sentir!
Ela é muito especial! Obrigada, minha filha especial!
Depois de 7 anos chegou Anna Carolina, Carol ou a TODA PODEROSA, como queiram chamar (especial). Carol nasceu prematura, seis meses, problemas no coração, problemas no pulmão, falta de oxigenação, lesão cerebral e um montão de “pias” durante sua vida (fisioterapia, hidroterapia...).
Carol me ensinou a amar o próximo! Eu jamais iria pensar em adaptador de banheiro se ela não tivesse necessidade de segurar- se, eu nunca iria ficar indignada com diagnósticos médicos se não fosse me oportunizado conviver com a AACD.
Carol abre meus olhos, me fazendo enxergar que ser diferente é tão mais especial que estar na normalidade. Faz você sair de seu mundo de mesmice e entrar no universo do outro, sentir o outro e suas limitações e lutar pelo outro por amor, sem querer nada em troca. Não sou eu que sou especial, mas elas!
Minhas meninas estão me lapidando a cada dia, elas estão me tornando mais humana, mais gente, mais consciente de mim, do mundo e do outro.
Filhas especiais, vocês me deram oportunidade de ver além, a não julgar, e, principalmente, amar sem limites. A crer que é possível ser feliz a todo momento!
Sobre ter necessidades especiais? Sabe o que eu acho?
Todos somos especiais!!

Willy

15 de jul. de 2017

201. O QUE VOCÊ DIZ É REALMENTE O QUE QUER DIZER? PARTE II

No post anterior, refletimos algumas frases ditas com frequência pelas mães. Por ser tema tão sutil e perigoso, trago mais algumas.

“Tudo o que eu falo entra por aqui e sai por aqui?”
Se está percebendo isso, mude já o jeito que fala. Algumas dicas: o cérebro gosta de estratégias diferentes, o blá-blá-blá cansa e não é efetivo. Para ativar a atenção apresente um discurso significativo e emocional. Não!!! Chantagem emocional só piora.

“Eu espero que os seus filhos sejam como você.”
Leia novamente a frase. Que mensagem passa? A de que este filho não é bem educado, não é? E pergunto: Quem o educou?

 “Esse povo que você está andando tem mãe?”
Será que a mãe deles faz a mesma pergunta? É provável. Então, está na hora de vocês se conhecerem.

“Não sou sua empregada.”
Muitas mães, por excesso de amor e zelo, são subservientes. Resultado: todos reclamam e nada reconhecem. O melhor é que toda a família colabore e tenha responsabilidades. Não dói, não diminui e ainda ensina para o mundo real.

“Quebraaaa! Não é você que compra!”
Descobri que muitos filhos quebram propositadamente seus smartphones para ganharem o modelo mais novo. Experimente parar de comprar. Se eles realmente quiserem um novo, venderão bolo, cortarão grama, passearão com o cachorro da vizinha entre tantas outras. Dar valor e conquistar o seu desejo contribui para a educação financeira e psico-social.

8 de jul. de 2017

200. O QUE VOCÊ DIZ É REALMENTE O QUE QUER DIZER? PARTE I



Há frases bem típicas de mães. Muitas delas ouvimos das nossas e/ou dissemos aos filhos. Nossas filhas dirão? Provavelmente, se perpetuarmos tal cultura. Proponho então, refletirmos sobre algumas frases clássicas. Sem rodeios e em dois posts.


“Quando o seu pai chegar…”
Ao dizer isso, seu filho pode interpretar que você abre mão da responsabilidade de educá-lo e de si própria, que não age com autonomia e coragem diante de situações difíceis, que não tem autoridade e que não é confiável, pois não confia em si.

“Quando eu tinha a sua idade…”
Quando você tinha a idade do seu filho você era outra pessoa, com outros estímulos, em outro contexto, com outros pais, irmãos, amigos, com outras aprendizagens, desenvolvimentos…

“Quando a gente chegar em casa a gente conversa…”
Este é um grande erro, em especial com crianças menores que não voltam no tempo como nós. Pior ainda, quando não se cumpre o combinado. Melhor mesmo, e funciona bem, é procurar na hora um cantinho onde só você e a criança conversem sobre o que precisa ser conversado, sem berros ou ameaças.

“Você não é todo mundo.”
E eu sempre penso: se quase todas as mães dizem isso, logo, quando os filhos dizem “todo mundo” não é bem assim, pois todos estão dizendo o mesmo às mães. Não nos iludamos.

“Vocês ainda não me viram nervosa!”
Essa é melhor nem comentar. Nem mais um piu! J