2 de jan. de 2014

87. CAIXA DE FELICIDADE.


Minha filha mais velha falou-me da caixa de felicidade sugerindo que fizéssemos. O que consta? Ao final do dia, reveja-o, reviva-o,  note e anote o que lhe causou felicidade, por menor que ela possa parecer ser. Coloque na caixa e reserve. Ao final deste ano, você terá vários momentos guardados. Abra a caixa e os leia, observando quantos presentes a vida lhe deu. E o quão simples é a felicidade. Achei bonita a ideia e vou fazer a minha caixa. E já tenho o primeiro papel.
Estou de férias, desfrutando momentos ricos e únicos em família. E sei que no fim destes dias vou enfrentar e encarar de frente o ninho vazio. Mas ontem, no abraço de boa noite às minhas filhas, deite-me com elas e ficamos a conversar da vida. E num abraço triplo elas me disseram: “Já já estaremos nós com o ninho vazio. Você vai fazer falta.” E me dei conta do que é o ninho em nós, o quão amplo ele é, quem o compõe e quem se responsabiliza por ele. Quando todos cuidam e se deixam ser cuidados o ninho torna-se único e fortalecido. Ter um ninho assim é para mim felicidade. Receber um abraço forte e saber que você fará falta, é também felicidade. Entregar-se ao abraço e corresponder com verdade e vontade é felicidade. Deixar o olho molhar com tamanha simplicidade é felicidade.
Que nossa caixa de felicidade seja abastecida com pequenos e grandes, simples e complexos, amorosos e generosos momentos de felicidade. 
Feliz 2014!

19 de dez. de 2013

86. EU FICO COM A PUREZA DAS PERGUNTAS E DAS RESPOSTAS DAS CRIANÇAS...


Daqui a pouco é Natal e comemoraremos o aniversário de Jesus, embora nossa sociedade consumista ajude-nos a esquecer disso. Que presente ganha o aniversariante? Hum... Mas falando Dele, há uma frase, em Marcos 10:15, que sempre me vem a mente: “Quem não receber o reino de Deus como uma criança, de maneira nenhuma entrará nele.” O que Jesus quis dizer com isso? Arrisco-me a dizer que não devemos esquecer a criança que há em nós, aquela que a sociedade não corrompe e nem mesmo nós. A criança é pura, é verdadeira, muitas vezes sábia, diz o que tem que dizer, faz o que quer fazer, sem se preocupar com o que dita a sociedade. Ela simplesmente é.
Trago então algumas pequenas histórias para que possamos nos lembrar do que é ser criança.
1. A senhora foi ao cabeleleiro. Na saída encontrou uma amiga com a neta e comentou: “Fui ao salão ficar mais bonita.” E eis que a criança responde: “E porque não ficou?”
2. O pai pergunta à criança porque terminou o namoro. Ela diz que quando saía da escola esquecia de encontra-lo. Mas adianta que há outro menino interessado. “E o que respondeu a ele?”, pergunta o pai. Disse: “Se eu me lembrar de você nos próximos dias, então a gente pode ficar noivo”. Que sábia resposta!
3. A menina faz várias perguntas a mãe. Quem criou isso e aquilo? E a mãe responde a todas: “Foi Deus”. Não satisfeita, faz a pergunta derradeira: “E quem criou Deus?” A mãe emudeceu.
4. A pequena iria fazer primeira comunhão. Aflita comenta com  a irmã: “Não sei o que confessar ao padre!” A irmã responde de sopetão: “Pede para a vovó alguns pecados emprestados.”
5. A filha passeia com a mãe, faz diversas perguntas e conclui: “Nossa, como você é sabida!” A mãe responde: “Para sermos mãe temos que fazer um teste.” A filha logo a interrompe: “Então, quem não passa no teste vira pai?” Ops, não fui eu quem falei.
6. Morre a avó querida da criança. A mãe a consola dizendo que ela virou uma estrelinha. Tempos depois vão ao cemitério e a mãe diz que a avó está ali. A criança pergunta: “Mas ela está aqui ou no céu feito estrelinha?” Hum... Não subestime a criança.
7. Duas mulheres conversam com uma criança ao lado. “Vou fazer cirurgia, pois meu peito caiu.”, diz uma delas. A criança olha para o chão, olha para a mulher e diz: “Você pegou de volta?”
8. No velório do avô, a criança pergunta ao pai: “Como ele sabe que morreu?” Boa pergunta.
9. A mãe preocupada com a maturidade da criança convoca-a para uma conversa: “Vamos falar de sexo?” E a criança responde: “Qual a sua dúvida?”
10. “Mãe, já sei contar.”, diz a criança. E começa: “Um, dois, três... dez e sete, dez e oito, dez e nove, dez e dez.” Ah que delicia a lógica infantil! Convenhamos... é bem melhor que a nossa.
Conte também a sua história.

Que nos lembremos do verdadeiro sentido do Natal e que neste 2014 possamos resgatar com todas as nossas forças a magia, a beleza, a pureza  e a delicia de ser criança. Boas festas!

12 de dez. de 2013

85. Perder a ingenuidade: uma dor sem saída.


Uma das coisas que mais me entristece na educação das minhas filhas é vê-las perdendo a ingenuidade e os olhares da infância. Meu primeiro choque desta dura realidade foi quando um casal de amigos foi sequestrado com as filhas. Uma delas chorava tanto que o sequestrador quase a matou. Vi-me sem saída e disse a elas: “Se um dia isso acontecer conosco, engulam o choro, mantenham a calma e depois, quando tudo terminar, choramos todos juntos.” Senti-me cruel, não dormi a noite, que mundo! Meses depois, assistíamos o Jornal Nacional, elas passaram pela sala e viram um garoto americano e armado entrando numa escola e matando quase todas as crianças. A mais nova, com cerca de 6 anos, perguntou-me: “Se isso acontecer na minha escola é melhor eu me misturar aos mortos e fingir que estou morta, né?” Esse comentário dilacerou meu coração! Fiquei petrificada, mas os seus olhos atentos esperavam por minha resposta. E tive que dizer: “Sim, é a melhor coisa que você faz!” Que triste dizer isso, mas a solução parecia-me horrorosamente boa. Hoje já estão mais velhas e a perda da ingenuidade ganha nova dimensão. Incomodam-se com as injustiças sociais, com o mundo corporativo, com a ganância dos políticos, com a desumanização da sociedade, com a falta de confiança nas pessoas. Dói nelas e dói em mim. Dizia Thomas Hobbes: “O homem é  lobo do próprio homem.” Dizia um professor meu: “O lobo não tem nada a ver com isso!” Que acordemos e consigamos manter por mais tempo a inocência de nossos filhos. Façamos a nossa parte.

5 de dez. de 2013

84. CICLOS ESPIRALADOS: NOVO PATAMAR.


Fui na escola de minha caçula. Aprovada no 3° ano do Ensino Médio. Fim de meu papel como mãe de aluno de escola. Sensação atrapalhada. Por um lado, almejava por isto. Por outro, senti um certo vazio. Muito tempo vivido em escolas: como aluna, como professora, como mãe. Devido as nossas mudanças de estado, minhas filhas estudaram em várias escolas. Pensei em cada uma. Não há escola perfeita. Pensei neste fim. Será que terei saudades da lista de lanche coletivo que chega na véspera? 50 coxinhas para amanhã? Um bolo de chocolate para as 7!? E aquelas fantasias para a apresentação de final de ano? Caras e nada aproveitáveis para outros eventos. E a lição que o filho não tem condições de fazer sozinho? E as injustiças que a professora cometeu contra ele? E a maquete para daqui a dois dias? E os trabalhos em grupo? Na casa de quem? Como vão e voltam? Será que terei saudades? Sei que precisei ser equilibrista e ter muita logística neste meu tempo de mãe de aluno de escola. Mas sei que terei saudades de muitas coisas também. De levar e buscar, de saber das novidades, das confusões, do que aprendeu de bom, das piadas que o professor contou em sala, das reuniões de pais e mestres, dos eventos, das festas, das trocas com os pais, alunos, funcionários, professores, coordenadores, diretores. Obrigada Escolas! Mas a vida é assim, como um espiral, onde uma conquista vale de base para as demais. Um caracol crescente. Creio que tivemos um bom ciclo, base forte para o que está por vir. Que venham os novos desafios! Continuemos a caracolar!

22 de nov. de 2013

83- EU QUERO! EU QUERO! EU QUERO! O QUERER DA CRIANÇA E COMO LIDAR COM ELE.


Retrato da Menina Maria Tavares de José Pancetti
O querer infantil está descabido, desmedido, voraz, sem fim, estimulado dia-a-dia pela sociedade consumista em que vivemos. Culpa da mídia? Não. Mas se cedemos a ela o nosso papel de formação da criança é bom rever. E não se engane ao fazer a vontade do filho, transformando o querer em precisar. Precisar é necessidade com tempo marcado, querer é desejo e pode esperar. Querer é bom, mas nem sempre é poder. O que fazer?
1. Desenvolver na criança o olhar critico ao querer. Não é porque todos têm que ela tem que ter também. Ensiná-la na prática a ser comedida, a resistir aos apelos de consumo. Identificar e avaliar o que é querer e precisar, a pesar os prós e os contras, a perceber os reais motivos do querer, a saber querer e querer quando puder ter e se puder ter. Esperar e se frustrar também faz parte da vida.
2. Fazer concessões é perigoso. É preciso ensinar a valorizar o querer. Hoje, a criança parece querer mais o querer do que o objeto que deseja. Ela ganha o que tanto insistiu, e logo se desinteressa, abandonando o que desejou. E, logo parte a outro querer. Querer é bom, mas querer só o querer não é.
3. A criança irá insistir, nos testar, nos chantagear. É bom estar atento, ser paciente, não comprar nada cansado e nem substituir presente por presença. Querer educar é sempre uma boa pedida.
4. Somos modelos, e a criança estará mais atenta às nossas ações do que às nossas palavras. Vale então refletir como temos lidado com os nossos quereres. Vale querer acertar e querer o que fica.

ps: Veja também minha última coluna na Pais & Filhos e note a revelação surpreendente de uma pesquisa sobre o querer da criança.


14 de nov. de 2013

82- MINHA ENTREVISTA NA BANDNEWS: QUANDO A CRIANÇA QUER UM ANIMAL DE ESTIMAÇÃO: O QUE FAZER?



Nesta semana, em 12.11.2013, fui novamente entrevistada pela BandNews FM, cujo tema central foi, desta vez, o QUERER da criança. Os âncoras Renato Cordeiro e Patricia Tosta provocaram o veterinário César Oliveira e a mim com questões que tinham como base o querer da criança por um animal de estimação.
Dr César ficou responsável pela questão da escolha e do cuidado do animal, enquanto eu com o querer da criança e em como lidar com ele de um modo geral. E ambos, falamos ainda das vantagens e desvantagens de se ter um animal de companhia.
Verifique e deixe o seu palpite.

Abaixo segue o link para que escute a entrevista na íntegra.

http://www.youtube.com/watch?v=zHfzRiDocoo

8 de nov. de 2013

81- SEGUNDA LIÇÃO: CISNES PRETOS TÊM PENAS BRANCAS


Segundo os ornitólogos todo cisne negro tem também plumas brancas. E nesta metáfora usada, diria que há em nós o potencial de ambos os cisnes: branco e negro. E, conscientemente ou não, desenvolvemos mais um deles. Ser cisne negro tem vantagens, mas é minoria e convive com a maioria. E se somos biológicos, somos também sociais. Assim, entender, respeitar e saber viver com cisne branco é necessário, caso contrário o cisne negro isolar-se-á em sua arrogância. Ter algumas penas brancas não é de todo mal. Há nelas características por vezes necessárias. E uma certa semelhança dará aos cisnes brancos segurança, o que possibilitará ao negro diferenciar-se. Mas, que penas escolher?
Ser cisne branco é agradar ao outro e não ser problema. É estar seguro nos trilhos, atento ao que já sabe e acomodado aos padrões. É ser dependente, submisso, meigo, passivo, previsível. Perfeito, frágil, inocente, suave, vulnerável, virginal.
Ser cisne negro é ser ousado, forte, espontâneo, criativo, visceral. Verdadeiro, intenso, exuberante, imprevisível, surpreendente. É reconhecer-se único, liberto da opressão e dos condicionamentos sem medo de impactar, de se entregar e de frustrar expectativas alheias. É saber andar por trilhas junto ao inesperado, ao incerto e à busca da excelência. Pronto a superar-se, a sair do lugar comum, a privilegiar o que não sabe em dúvidas e curiosidades.
Posto assim, que saibamos dialetizar os modos opostos de ser, bem escolher as nossas penas, em busca de uma síntese que faça de nós, pais e filhos, seres convictos do que se quer ser.

1 de nov. de 2013

80- EXEMPLO DE UMA CRIANÇA CISNE NEGRO


Na postagem anterior defendi a ideia de desenvolver nos filhos o ser Cisne Negro. Um ser raro, que busca em sua autenticidade, ser o que é, não se atendo ou se entregando as expectativas alheias e comuns. O vídeo abaixo fez-me refletir. Talvez nasçamos cisnes negros, mas corrompidos pela sociedade e educação, fortalecemos os cisnes brancos em nós, padronizados e socialmente corretos e aceitos. O vídeo mostra uma apresentação de sapateado de crianças em idade pré-escolar, onde uma delas quebra o protocolo, abre mão da coreografia sem graça e entrega-se, totalmente liberta, à música deixando corpo e mente fluirem. Não faz por exibicionismo, faz para si e se diverte. Notem que a menina ao lado, já bem padronizada, perde-se. Já deve ter aprendido que se frustrar o outro, arrisca-se a grandes perdas. Assim aprendemos. Mas, quem rouba a cena é a garota liberta. Observe a reação da plateia! Embora saiba que muitos veem um cisne como um Patinho Feio. Mas, os fatos históricos e a própria vida mostra que o diferente e o nada previsível é o que faz a diferença. Que esta pequena cisne negra ajude a professora de sapateado e toda a plateia a perceberem que a criança pequena tem muito mais a ensinar do que a aprender. E por favor, não a taxem de TDAH ou digam que há diferenças entre a abordagem afro-americana e a européia. Não, por favor, não! Prefiro crer que ela simplesmente resiste a contaminação. Vamos ao vídeo.

29 de out. de 2013

79- PRIMEIRA LIÇÃO: SEJAM CISNES NEGROS!

www.institutoricardobrennand.org.br

Há alguns anos, levei minhas filhas para ver a exposição de Albert Eckout no Instituto Ricardo Brennand em Recife. Estudavam na época o Brasil Holandês (1630 - 1654) e Eckout havia feito parte da comitiva científica e artística de Maurício de Nassau para documentar o nosso mundo. Fomos buscar sentido, identificar, complementar, inquietar-se para além dos estudos. Ao final, sentamos num gramado para admirar o lago cheio de aves. Chamou-me a atenção os cisnes, e a representação que me vinha a mente: lindos e elegantes cisnes brancos. Mas havia lá os raros cisnes negros que me puseram a pensar e com elas compartilhei.  Pedi que observassem o lago e notaram vários cisnes brancos e bem poucos negros. Então perguntei: “Se eu tirar um cisne branco irão perceber?” E elas responderam prontamente: “Não”.  “E se eu tirar dois? Cinco? Oito?”, reperguntei. E as respostas eram iguais: “Não, não perceberemos.” “E se eu tirar um cisne negro, apenas um?”, indaguei. Elas riram da obviedade: “Aí sim perceberemos.” E então eu disse: “Sejam cisnes negros!” E com linguagem de criança conversamos da pequenez em ser massa social, ser igual e ser comum, ser padronizado e ser mais um, ser previsível dentro das expectativas comuns. E o quão bom é ser raro, diferente, notável, surpreendente, envolvente. Mas lembrei-as que a maioria prefere os cisnes brancos, pois se reconhece neles, e teme e ataca o diferente. Por isso,  ser cisne negro requer ousadia, garra, coragem, autoconfiança, autoconhecimento, vontade. Ser maioria é fácil. Ser raro e liberto é para poucos.

Na próxima postagem, um exemplo concreto de uma criança que intuitivamente já se mostra um cisne negro.

16 de out. de 2013

78- VIDAS QUE ENSINAM


Assisti a semana passada o programa The Voice Brasil, nossa versão do formato original holandês. É um show de talentos, que inicia com audições às cegas, isto é, apenas a voz do candidato, e não a sua aparência ou performance, é valorizada. Os avaliadores ficam de costas e o candidato canta na expectativa de que ao menos uma das quatro cadeiras vire-se, o que significa que participará do programa. Gosto de observar tanto o candidato quanto os que o julgam: a escolha da música, o controle das emoções, a ousadia, a subjetividade da avaliação, a reação da plateia, a concentração, a competência, as estratégias... Mas neste dia, quando dei por mim estava em lágrimas antes dele começar. A mãe o havia encontrado em uma caixa de papelão. Pegou-o e o colocou na cama dizendo: “Este é o seu lar.” Como há gente generosa neste mundo! Mas não parou por aí. Foi uma mãe atenta e logo reparou que o menino gostava de assobiar. Deu-lhe então oportunidades e este as agarrou e se desenvolveu. E então, Sam Alves, que já havia participado nos EUA deste programa e sido reprovado, ainda que Shakira tivesse se arrependido, chorou, mas não parou. Determinado, bem preparado e com humildade colocava-se para mais uma prova de fogo. “Eu só quero que uma cadeira vire para mim”, desejou. Mas não. Quando começou a cantar When I was your man, de Bruno Mars, era notório que cantava com a alma, indo além da técnica e da perfeição. Todos o escolheram. Acolhimento, oportunidade, motivação, apoio, tudo isso o jovem recebeu. Mas fez sua parte e foi além. Que emoção!