8 de nov. de 2013

81- SEGUNDA LIÇÃO: CISNES PRETOS TÊM PENAS BRANCAS


Segundo os ornitólogos todo cisne negro tem também plumas brancas. E nesta metáfora usada, diria que há em nós o potencial de ambos os cisnes: branco e negro. E, conscientemente ou não, desenvolvemos mais um deles. Ser cisne negro tem vantagens, mas é minoria e convive com a maioria. E se somos biológicos, somos também sociais. Assim, entender, respeitar e saber viver com cisne branco é necessário, caso contrário o cisne negro isolar-se-á em sua arrogância. Ter algumas penas brancas não é de todo mal. Há nelas características por vezes necessárias. E uma certa semelhança dará aos cisnes brancos segurança, o que possibilitará ao negro diferenciar-se. Mas, que penas escolher?
Ser cisne branco é agradar ao outro e não ser problema. É estar seguro nos trilhos, atento ao que já sabe e acomodado aos padrões. É ser dependente, submisso, meigo, passivo, previsível. Perfeito, frágil, inocente, suave, vulnerável, virginal.
Ser cisne negro é ser ousado, forte, espontâneo, criativo, visceral. Verdadeiro, intenso, exuberante, imprevisível, surpreendente. É reconhecer-se único, liberto da opressão e dos condicionamentos sem medo de impactar, de se entregar e de frustrar expectativas alheias. É saber andar por trilhas junto ao inesperado, ao incerto e à busca da excelência. Pronto a superar-se, a sair do lugar comum, a privilegiar o que não sabe em dúvidas e curiosidades.
Posto assim, que saibamos dialetizar os modos opostos de ser, bem escolher as nossas penas, em busca de uma síntese que faça de nós, pais e filhos, seres convictos do que se quer ser.

1 de nov. de 2013

80- EXEMPLO DE UMA CRIANÇA CISNE NEGRO


Na postagem anterior defendi a ideia de desenvolver nos filhos o ser Cisne Negro. Um ser raro, que busca em sua autenticidade, ser o que é, não se atendo ou se entregando as expectativas alheias e comuns. O vídeo abaixo fez-me refletir. Talvez nasçamos cisnes negros, mas corrompidos pela sociedade e educação, fortalecemos os cisnes brancos em nós, padronizados e socialmente corretos e aceitos. O vídeo mostra uma apresentação de sapateado de crianças em idade pré-escolar, onde uma delas quebra o protocolo, abre mão da coreografia sem graça e entrega-se, totalmente liberta, à música deixando corpo e mente fluirem. Não faz por exibicionismo, faz para si e se diverte. Notem que a menina ao lado, já bem padronizada, perde-se. Já deve ter aprendido que se frustrar o outro, arrisca-se a grandes perdas. Assim aprendemos. Mas, quem rouba a cena é a garota liberta. Observe a reação da plateia! Embora saiba que muitos veem um cisne como um Patinho Feio. Mas, os fatos históricos e a própria vida mostra que o diferente e o nada previsível é o que faz a diferença. Que esta pequena cisne negra ajude a professora de sapateado e toda a plateia a perceberem que a criança pequena tem muito mais a ensinar do que a aprender. E por favor, não a taxem de TDAH ou digam que há diferenças entre a abordagem afro-americana e a européia. Não, por favor, não! Prefiro crer que ela simplesmente resiste a contaminação. Vamos ao vídeo.

29 de out. de 2013

79- PRIMEIRA LIÇÃO: SEJAM CISNES NEGROS!

www.institutoricardobrennand.org.br

Há alguns anos, levei minhas filhas para ver a exposição de Albert Eckout no Instituto Ricardo Brennand em Recife. Estudavam na época o Brasil Holandês (1630 - 1654) e Eckout havia feito parte da comitiva científica e artística de Maurício de Nassau para documentar o nosso mundo. Fomos buscar sentido, identificar, complementar, inquietar-se para além dos estudos. Ao final, sentamos num gramado para admirar o lago cheio de aves. Chamou-me a atenção os cisnes, e a representação que me vinha a mente: lindos e elegantes cisnes brancos. Mas havia lá os raros cisnes negros que me puseram a pensar e com elas compartilhei.  Pedi que observassem o lago e notaram vários cisnes brancos e bem poucos negros. Então perguntei: “Se eu tirar um cisne branco irão perceber?” E elas responderam prontamente: “Não”.  “E se eu tirar dois? Cinco? Oito?”, reperguntei. E as respostas eram iguais: “Não, não perceberemos.” “E se eu tirar um cisne negro, apenas um?”, indaguei. Elas riram da obviedade: “Aí sim perceberemos.” E então eu disse: “Sejam cisnes negros!” E com linguagem de criança conversamos da pequenez em ser massa social, ser igual e ser comum, ser padronizado e ser mais um, ser previsível dentro das expectativas comuns. E o quão bom é ser raro, diferente, notável, surpreendente, envolvente. Mas lembrei-as que a maioria prefere os cisnes brancos, pois se reconhece neles, e teme e ataca o diferente. Por isso,  ser cisne negro requer ousadia, garra, coragem, autoconfiança, autoconhecimento, vontade. Ser maioria é fácil. Ser raro e liberto é para poucos.

Na próxima postagem, um exemplo concreto de uma criança que intuitivamente já se mostra um cisne negro.

16 de out. de 2013

78- VIDAS QUE ENSINAM


Assisti a semana passada o programa The Voice Brasil, nossa versão do formato original holandês. É um show de talentos, que inicia com audições às cegas, isto é, apenas a voz do candidato, e não a sua aparência ou performance, é valorizada. Os avaliadores ficam de costas e o candidato canta na expectativa de que ao menos uma das quatro cadeiras vire-se, o que significa que participará do programa. Gosto de observar tanto o candidato quanto os que o julgam: a escolha da música, o controle das emoções, a ousadia, a subjetividade da avaliação, a reação da plateia, a concentração, a competência, as estratégias... Mas neste dia, quando dei por mim estava em lágrimas antes dele começar. A mãe o havia encontrado em uma caixa de papelão. Pegou-o e o colocou na cama dizendo: “Este é o seu lar.” Como há gente generosa neste mundo! Mas não parou por aí. Foi uma mãe atenta e logo reparou que o menino gostava de assobiar. Deu-lhe então oportunidades e este as agarrou e se desenvolveu. E então, Sam Alves, que já havia participado nos EUA deste programa e sido reprovado, ainda que Shakira tivesse se arrependido, chorou, mas não parou. Determinado, bem preparado e com humildade colocava-se para mais uma prova de fogo. “Eu só quero que uma cadeira vire para mim”, desejou. Mas não. Quando começou a cantar When I was your man, de Bruno Mars, era notório que cantava com a alma, indo além da técnica e da perfeição. Todos o escolheram. Acolhimento, oportunidade, motivação, apoio, tudo isso o jovem recebeu. Mas fez sua parte e foi além. Que emoção!

2 de out. de 2013

77- Para Camila


Hoje você faz 17 anos. Olho fotos antigas, que nostalgia! Nós na praia, no zoológico, nas festas da escola, nos campos, em aventuras, em viagens, estudando, filhosofando, brincando, em refeição, em comunhão. Vejo o seu desenvolvimento e as ricas experiências que te oportunizamos. Parabéns, você fez a sua parte e as bem aproveitou. Tenho grande orgulho da vida que constrói, do modo como vive, do quanto se percebe autora de si. Felicidade tenho em aprender com você, com sua sabedoria, com seus valores, princípios e senso de justiça que abalam os meus. Não tive pressa para você engatinhar, andar, falar, amar. Desejei-te criança, enquanto era criança. Menina, enquanto era menina. Adolescente, enquanto ainda é, embora já tenha corpo e confiança de mulher. Parabéns Camila! Continue com sua autonomia responsável, com sua alegria de menina, com suas inquietações que te fazem crescer. Continue traçando planos, colocando-se metas, buscando dar o seu melhor naquilo que faz. Não se contente com pouco, olhe sempre o outro, respeite a todos, não se intimide. Muitos invejam, outros querem o mal, alguns incomodam, siga em frente. Conte até três, ate cem e se preciso dobre, mas não quebre. Pois há também muita gente boa neste mundo, e muita experiência rica por viver. Não desanime, desafie-se e caminhe. Chore para esvaziar, mas sorria. Ame sem medo, atente-se às influencias com crítica e busque sempre o que você acredita. Seja Camila! E saiba que te amarei para sempre, daqui até a lua, ida e volta, ene vezes. Sempre. Parabéns, Camila!

4 de set. de 2013

76- EDUCAÇÃO PELO MUNDO.CHINA: VI- E EU QUE ACHAVA DIFÍCIL ALFABETIZAR!


Nosso alfabeto é fonético. Cada letra identifica um som, e não dá nenhuma informação do seu significado. Já a escrita chinesa é baseada em ideogramas, “desenhos” que representam ideias, sentimentos, objetos, etc. Ou seja, cada ideograma tem um significado, mas não um som. E a junção de ideogramas traz novas ideias. Por exemplo: crise é formada pelos ideogramas perigo e oportunidade. Tranquilidade pela junção de ouro e verdade. A dupla repetição do ideograma mulher transforma-se em fofoca. E três deles, confusão. Hum, difícil admitir esta ideia, mas acho que eles têm razão. A escrita é extremamente complexa e quantos caracteres existem é difícil precisar. Mas, o grande dicionário chines de 1990 consta de 8 volumes totalizando 56 mil caracteres. Mas que alivio! Com 3 mil consegue-se ler o básico de um jornal. Eu que achava complicado alfabetizar alguém usando a combinação de 26 letras! A cada ano escolar, a criança é desafiada a aprender 500 novos ideogramas. Mas, tanto trabalho e dedicação serviriam ao mundo atual, digitalizado e globalizado? Difícil convencer um chinês, afinal aprecia em demasia a sua cultura e tradições. Todavia, o mundo online começa a fazê-los perceber que os ideogramas têm sido uma muralha entre a China e o mundo. E, aos poucos aparece a coexistência da escrita alfabética e ideográfica. Irão os ideogramas resistir? O tempo dirá. Mas, no próximo post veremos os benefícios (e dicas) que a escrita ideográfica traz ao desenvovlimento cerebral. Não perca.

16 de ago. de 2013

75- EDUCAÇÃO PELO MUNDO.CHINA: V. A FORMAÇÃO INTEGRAL DO SER HUMANO.



Os chineses valorizam muito a formação integral e equilibrada da criança, deixando claro ser este um grande investimento para toda a vida. Boa parte das escolas, começam e findam o dia com uma atividade física, pois acreditam na relação corpo e mente. E em todas elas os alunos são avaliados por três critérios: resultado acadêmico, sociabilidade e saúde corporal. Assim, diferente de nós, os esportes, as artes diversas e as relações pessoais são valorizadas no mesmo nível de importância dos conteúdos acadêmicos. Como também, trabalham o conhecimento que o aluno tem de si, ensinando-os a ter controle do corpo e da mente. 
Nota-se que escola, pais e o próprio aluno colaboram nesta formação. A escola prima pela qualidade, acredita no potencial do aluno e está sempre atenta às suas deficiências e em como resolvê-las. Os pais pressionam a escola e os filhos por qualidade, investem na criação de hábitos para o estudo e em atividades extra curriculares. O aluno dedica-se com afinco ao aprendizado, tem consciência de sua responsabilidade nesta formação, além de reconhecer o investimento que a família e a escola fazem para esta viabilização. Assim, aproveita a oportunidade. E todos acreditam no poder da educação para alcançar patamares diferenciados. 
Com isso, não há espaço para a indisciplina, o tempo é bem aproveitado e a  diferença entre a média mais baixa e mais alta dos estudantes é mínima. Ou seja, todos os alunos são excelentes. Como vemos, não é só questão de genética. 

6 de ago. de 2013

74- EDUCAÇÃO PELO MUNDO. EDUCAÇÃO NA CHINA: IV. A INTERNACIONALIZAÇÃO E AS MUDANÇAS NECESSÁRIAS



Diferente da nossa falsa modéstia e descrença em nosso país, os chineses são autoconfiantes, elogiam a si mesmos, valorizam seu país e seus cidadãos. Analisam-se sem medo, buscam os erros e as melhorias necessárias. Planejam, colocam prazos definidos para resolvê-los e não perdem tempo. Reconhecem que o processo de internacionalização requer mudanças, e iniciam pela educação. Se hoje é raro encontrar um adulto chinês falando inglês, é fácil se deparar com uma criança fluente na nova língua. Além disso, começam a ampliar a visão dos estudantes à diversidade cultural, e os enviam para estudar fora do país tornando-os mais globalizados e mundialmente competitivos. E, ainda que quase tudo o que temos seja “made in China”, e que eles tenham contribuído com grandes invenções como o papel, a pólvora, a bússola, a pipa, o dominó etc, hoje percebem que têm carências para inovar e criar e que a rigidez na educação não tem contribuído. 
Então, sem perder a qualidade e a disciplina, tornam aos poucos as aulas mais dinâmicas, criativas e problematizadoras, e claro, investem na qualificação docente. E nos próximos 10 anos o foco será na Educação Infantil. Já notaram, e muito bem,  que esta é a base para o desenvolvimento humano e, por conseguinte, ao desenvolvimento do país. Não é a toa que a China é hoje a 2ª maior potencia econômica e a 1ª no PISA, um respeitado teste internacional de qualidade educacional. No próximo post, veja que interessante o que priorizam na formação da criança. 

23 de jul. de 2013

73- EDUCAÇÃO PELO MUNDO. CHINA: III- ESCOLA, FAMÍLIA E A ÂNSIA PELA COMPETITIVIDADE.


Tão logo a criança entra na escola, inicia uma enorme expectativa dos pais e da escola sobre  sua disciplina e rendimento escolar. E logo inculcam na criança a valorização à competitividade. Afinal, num país tão populoso a competição já faz parte da cultura.
Com isso, nota-se uma grande parceria entre a escola e os pais. Em geral, a família coopera com a formação e o rendimento do aluno, e pressiona a escola requerendo qualidade e ensino puxado. Muitas mães param de trabalhar para apoiar o filho, e a casa tende a ser organizada para viabilizar um bom estudo.
As escolas, na maioria públicas, são de período integral e a rotina do aluno é intensa e extensa. E ao chegar em casa, ainda tem aulas extras e estuda por mais 3 ou 4 horas. Não há tempo para o lazer, para o ócio, para namoro, para viver além dos estudos. O foco é estudar, ser o melhor, superar os adversários e enfrentar o “Gao Kao”, que é o teste que lhes garantirá o ingresso a uma boa universidade, e que por sua vez, possibilitará um bom emprego e uma carreira de sucesso. 

No ambiente escolar é notória a organização e a concentração dos alunos de qualquer faixa etária. E, além de serem muito parecidos fisicamente, são também em termos comportamentais. Tímidos, reprimidos, focados, competitivos, disciplinados, excelentes alunos, mas pouco criativos e inovadores. Mas isto não fica assim, afinal a competição agora é também internacional. Veja no próximo post as mudanças que se fizeram necessárias.


ps: Note que nas salas de aula há alguns brasileiros tirando fotos, assim como eu. Nem professores e nem alunos desconcentram. Incrível!

16 de jul. de 2013

72- EDUCAÇÃO PELO MUNDO. CHINA: II: O FIM DA AFETIVIDADE E O INÍCIO DA COMPETIÇÃO.


Como vimos na postagem anterior, na primeira infância os chineses enchem as crianças de carinhos e toques. E a medida em que os filhos vão crescendo, os pais se afastam deles, física e afetuosamente. Reprimem o afeto. Os chineses não se abraçam! Claro que há uma interferência cultural nesse comportamento. Durante a Revolução Cultural o amor pela família era considerado uma traição ao país e ao partido comunista que deveria estar acima de tudo e de todos. Assim, as crianças eram afastadas dos pais para não se contaminarem com os antigos costumes.
Hoje, após a abertura ao mundo, a China começa a ter influências ocidentais, inclusive na afetividade. Mas, toda mudança é lenta, e enquanto isso a repressão afetiva parece servir como uma proteção emocional às famílias. Além disso, as mais pobres mandam os filhos para outras províncias em busca de trabalho. E as mais ricas internam as crianças em escolas acreditando ser o melhor para a sua formação. Visitei alguns quartos destas escolas. Sem aconchego, frio, pouco colorido e impecavelmente organizado. Num deles havia um mural com as fotos das crianças que ali habitavam. Tinham no máximo 5 anos! Meu coração brasileiro saiu pequenininho.
Quadro de honra ao mérito.
E, por serem únicos, os filhos recebem muitas pressões e grandes expectativas da família para serem os melhores alunos, os melhores no trabalho, os melhores em tudo. A competitividade está travada. Veja como isto funciona na próxima postagem.