12 de mar de 2015

142. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Ahmedabad.


O último projeto que irei apresentar foi conhecido e vivenciado em Ahmedabad, uma cidade também bem interessante. Fomos a Riverside, escola lindamente construtivista, cuja fundadora, Kiran Bir Sethi, é também a idealizadora do fantástico projeto “Design for Change”. (ps: Tem um TED bem interessante com ela.) Conhecemos a escola pelos alunos que, ainda que pequenos, deram um show de como a escola funcionava. Falaram dos projetos, dos ideais da escola, de como aprendiam e o que aprendiam. Emocionante de se ver, bem como ver alguns projetos acontecerem. 
Interessante como eles vivenciam a aprendizagem, sentindo na pele, o que para mim é o melhor modo de aprender. Por exemplo: Um dos temas era o trabalho infantil, muito comum na Índia. As crianças da escola viveram um dia como se fossem essas crianças. Ficaram o dia todo quebrando pedras embaixo do sol e de um calor insurpotável. Um outro projeto achei uma graça e servia aos alunos que tinham desavenças entre si. Explicitavam a raiva, marcando em um mural quem não gostava de quem. E um deles presenteava o outro com uma planta. E ambos deveriam cuidar dela, enquanto se cuidavam. Deu-me certo conflito essa exposição, mas ao mesmo tempo achei lindo.
Passaria dias contando os projetos que vi ali. Mas vale focar no  “Design for Change”, que inclusive a própria Kiran reforçou aquilo que os pequenos alunos já haviam nos dito. É um projeto que trata o aluno como protagonista histórico e ser capaz de propiciar transformações. O método é simples e segue quatro passos: Sentir (feel), Imaginar (imagine), Fazer (do) e Compartilhar (share). Ou seja, o aluno detecta algum problema que o incomoda, o que já o ensina a observar a realidade como ser ativo. Então ele imagina como pode resolver o problema, e em geral convoca outros para ajudá-lo. Próximo passo é colocar em prática o planejamento do passo anterior, isto é, fazer. E então, compartilhar a experiência, que é um modo de contaminar benignamente a outros.
Esse projeto é relativamente novo e já alcançou boa parte do mundo. Assistimos vídeos de diversos países, com diferentes problemas e suas resoluções. Hong Kong, Butão, Chile, Colômbia, França, Canadá, EUA, Camarões, México, Espanha, Brasil, Filipinas, Portugal, Singapura entre tantos outros. E a maioria conseguiu arrancar-me lágrimas. As crianças levantavam e resolviam problemas de bullying, cantina, recreio, material escolar, acesso à escola, limpeza dos banheiros, buracos nas estradas, inclusão de alunos e diversos outros. Não importava o tamanho do problema nem a sua complexidade, mas sim ensinar às crianças a sentirem os problemas, pensarem em soluções e agirem. Realmente arrepiante de se ver. Tudo muito inspirado no Quociente de Gandhi, já explicado em post anterior. Mas que se resume numa frase do próprio: Seja você a mudança que quer no mundo.
Que ideia simples, mas altamente transformadora. E, além de compartilharem com a comunidade o problema sentido e como foi resolvido, há ainda um evento, de que também participamos, onde há a troca com todas as escolas envolvidas da Índia. Como há ainda um evento bem maior, onde compartilham com todas as escolas do mundo que abraçam essa causa. Kiran, a idealizadora, é de uma simplicidade que nos faz pensar e é mulher iluminada. Não há como negar.
Por mais que existam também aqui no Brasil projetos assim, eu nunca vi algo tão grandioso, organizado e ao mesmo tempo simples e complexo.  Sei que, de todas as viagens que já fiz, talvez a Índia tenha sido a que mais impactou a minha vida. Proporcionou-me rever muitos conceitos, valores e percebi mudanças que vieram delicadamente, assim como os indianos são.

Obrigada Deus pela vida, por me acompanhar nessas aventuras tão construtivas, por me permitir viver tais maravilhas. Obrigada a cada indivíduo que passou pela minha vida, ajudando-me, por bem ou por mal, a ser pessoa melhor. Um ser ainda em construção, e que assim seja até o último suspiro. Até a próxima viagem!

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SÉRIE EDUCAÇÃO PELO MUNDO

9 de mar de 2015

141. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Pune.


O interessante dos indianos é que eles nos colocam para viver a cultura, o que é bem mais fidedigno para compreendê-la. Em Pune, ficamos hospedados na Universidade de Flame, que fica em um lindo vale. Todos os alunos moram ali. Foi uma experiência muito mais rica em termos de conhecimento da cultura, inclusive da rural. 
Ficar entre os alunos e viver o cotidiano deles numa cultura tão diferente da nossa foi realmente interessante. Participei de meditações, de vivências com músicas e danças, de dinâmicas grupais e individuais, vivendo num campus em funcionamento. Bárbaro. Em um dos dias, tivemos uma troca de experiências entre um grupo de educadores brasileiros e o staff da Faculdade. Falamos das semelhanças e diferenças entre nós e senti muita vergonha quando um dos diretores, Rajneesh, perguntou-nos qual era o valor que nos unia enquanto nação. Nos enrolamos para responder, gaguejamos, falamos bobagens, o que significava para mim, que de fato não tínhamos um valor. Para eles, o respeito pela nação era o que os unia. Lembrei-me da Copa do Mundo de 2014, quando os brasileiros começaram a abandonar a arquibancada ainda no início daquele inesquecível jogo contra a Alemanha. Respeito ao país? Não temos. Temos valor? Hummm...

Além de outras ricas trocas, a própria reitora, Indira Parikh nos conduziu ao que ela chamou de Magic Lab, numa experiência inesquecível e realmente mágica de auto e heteroconhecimento. Além de nos proporcionar em sua própria casa, um jantar com educadores de didáticas diversas e nos levar ao seu quarto para mostrar os seus saris. Sentada em sua cama, pensava nessa rara, rica e diferente experiência. Que maravilha!

6 de mar de 2015

140. EDUCAÇÃO PELO MUNDO: Índia e a Educação por Projetos: Srishti School (Bangalore).


Srishti School of Art, Design and Technology fica em Bangalore, principal hub de alta tecnologia e telecomunicações da Índia. Também conhecida como o coração do Vale do Silício Asiático. Cidade bem desenvolvida, mas como toda a Índia, também repleta de pobreza. Em Sristhi, há um projeto bem interessante e que pude vive-lo tal qual os fundamentos que ele proclama. Primeiro, a experiência. Explorar sem muito pensar. Segundo, pensar a respeito e de diferentes formas. Terceiro, voltar-se à experiência modificando-a. E foi exatamente assim que a Faculdade nos recebeu. Com um grupo de alunos do primeiro ano, ano que é destinado, intencionalmente para bagunçar os conceitos. Participamos dos conhecimentos de Kabir, o místico e popular poeta do século XV, que nos foi apresentado por músicas, histórias, documentários, vivências corporais, vivências sociais e depoimentos de diversos indianos que diziam da origem e da morada do conhecimento, enquanto expressavam seus modos de ver a vida, de dar sentidos a ela e encontrar sua missão na mesma. Pensamentos que pareciam alcançar uma ideia comum: o ser interior. Leia alguns retirados dos depoimentos.
“O conhecimento mora na experiência e então suas ações determinam quem você é!”; “Mas quem determina o que é bom ou ruim?”; “Minha ação é a minha religião.”; “Se você aprendeu só em livros, o seu conhecimento está limitado entre A a Z. É preciso ir além disso.”; “Muito do conhecimento já está em nós. É preciso saber olhar.”; “Se você enxerga a guerra fora é porque você tem a guerra dentro. Se você vê o amor fora, é porque você vê o amor dentro.”; “Muito do conhecimento, que vai além do A a Z, só pode ser encontrado no silêncio.”; “A verdade está nos seus olhos e há coisas que não se nomeiam.”; “Eu achei Deus na pupila dos meus olhos!” E assim seguiu, até o momento que conversamos com os alunos fazendo trocas de conflitos gerados pelo o que tínhamos já construído em nós e pelo o que foi ali apresentado. Muito rico o modo com os indianos vêem essas questões. Colocou-me para pensar. Objetivo atingido: provocou-me a desestabilização dos conhecimentos já construídos. Maravilha! 
Um rápido lanche e então, uma exposição liderada pela coordenadora Arzu Mistry sobre como a Faculdade se desenvolve, os seus projetos interdisciplinares e reais e como ela age de forma transformadora na comunidade. 
Almoçamos, sintetizamos o que vimos mediante os nossos corpos numa vivência interessante e fomos à prática, ver alguns projetos já vivenciados e outros ainda em construção.
Um deles me encantou. Os alunos de 4° e 5° anos visitaram comunidades carentes em busca de entender melhor a cultura popular. Foram em busca de metáforas, de conhecimentos, de histórias e relatos para então voltarem à faculdade e transformar o que detectaram em uma história infantil que voltaria depois à comunidade. Um encanto de projeto e de uma qualidade fantástica. Fez arrepiar. 
No dia seguinte, fomos a uma das sete comunidades que a Srishti apoia, oferecendo ajuda múltipla para trazer de volta as crianças e jovens que haviam abandonado a escola. Assim, dentro da comunidade e com a grande colaboração deles propiciam ampliar os horizontes de todos. Outro projeto de arrepiar. Estivemos com alguns alunos que deram belíssimos depoimentos de superação. Mostraram o funcionamento genial da escola e as possibilidades que se abrem a eles. Alguns já em faculdades, outros em trabalhos que antes nem podiam imaginar, falavam e apresentavam o seus crescimentos.
E a noite, jantamos com o staff da Faculdade, cada qual expondo o seu projeto principal dentro daquele vivo sistema educacional transformador de mundos e gentes. Aplausos, aplausos, aplausos. Propostas que fazem sentir e sentido. Bravo!